Resenha: O Homem Mais Rico da Babilônia

George Samuel Clason foi um pioneiro. A editora fundada por ele foi a primeira a publicar atlas rodoviários dos Estados Unidos e do Canadá. Sendo alguém bem-sucedido, ao atingir a meia idade na década de 1920 começou a repartir seu conhecimento sobre prosperidade através de panfletos distribuídos por agentes bancários, corretores de seguros e empresários, alcançando milhões de leitores.

Seu expediente pedagógico para cativar tanta gente foi ambientar seus artigos no tempo da Babilônia, a suntuosa cidade-estado do Oriente Médio que viveu seu auge por volta de dois mil anos antes de Cristo. Sem recursos naturais como ouro, prata e bronze, a cidade da Mesopotâmia, onde hoje fica o Iraque, construiu sua riqueza literalmente através das águas do Rio Eufrates, a partir de canais que irrigaram o solo fértil de seu entorno.

Posteriormente, as parábolas foram reunidas num livro cujo título é o mesmo de um dos textos. O best-seller mundial já vendeu mais de dois milhões de exemplares. Vale frisar que a obra de Clason é ficcional, mas empresta aos conceitos apresentados pelo autor um caráter atemporal que, desde então, verificou-se perene para aqueles que empregaram seu conteúdo no cotidiano.

O valor do trabalho

Clason evitou o puritanismo em voga nos Estados Unidos durante a primeira metade do século 20, ao retratar personagens que viviam numa época onde o politeísmo era praticado. Ele se recusa a falar em paraíso e recompensas além da vida, ao deixar claro que as pessoas, depois de viverem seu tempo sobre a Terra, serão chamadas para o mundo da escuridão, sendo uma missão delas provisionar o amparo de suas famílias.

O caráter previdenciário dos escritos remete à necessidade do indivíduo de realizar seu trabalho do melhor modo possível. Uma das formas de prosperidade, inclusive, seria buscar constante aprimoramento no modo de praticar o ofício, o que possibilita o aumento da renda, seja qual for a função. Mostrar-se disposto ao trabalho abre oportunidades que não aparecem aos sujeitos que fogem da labuta.

Deixando a religião de lado, Clason reforça os valores morais como trabalho e família, que ajudaram a moldar a América, mais do que a Babilônia. Ocorre que somente com a renda oriunda do trabalho, o sujeito não consegue obter uma vida mais tranquila ao seu final. Se este quiser realmente ser próspero para pode se manter – e cuidar de sua família – quando não tiver mais forças para trabalhar, ele precisa ir além. Como?

Busque a sabedoria antes da riqueza

Ganhar uma fortuna não é por si só a solução dos problemas. Existem herdeiros que desperdiçam tudo em menos de uma geração. Há quem ganhe um prêmio na loteria e poucos anos depois está pobre novamente. Antes de ganhar dinheiro, é preciso aprender a conservá-lo e o mais importante: como ele pode ser multiplicado indefinidamente.

Num dos textos de Clason, Bansir e seu amigo Kobbi, cansados de trabalhar arduamente sem conseguir dar uma vida melhor para seus entes queridos, vão buscar conselhos com Arkad, justamente o homem mais rico da Babilônia. Logicamente é uma parábola. Imagine você tentar marcar uma hora para conversar com Warren Buffet na sede da Berkshire Hathaway em Omaha? Ou quem sabe um café com Luiz Barsi, no centro histórico de São Paulo?

Arkad era um amigo de infância de Bansir e Kobbi que soube prosperar. Se não temos intimidade com grandes investidores do nosso tempo, ao menos temos acesso aos seus escritos, como as cartas anuais de Buffett para os acionistas da Berkshire, e os relatórios semanais de Barsi publicados pela Suno Research. O mais importante é que podemos nos aconselhar com os homens mais experientes no correto manuseio das moedas, como está descrito numa das cinco leis do ouro, em outro capítulo do livro.

As parábolas de Clason foram escritas entre as décadas de 1920 e 1930 e possuem o mérito de antecipar conceitos que foram definidos com mais precisão somente alguns anos depois. O primeiro deles atende pela “educação financeira”. Outro conceito digno de nota é simplesmente a “margem de segurança” implícita na quarta lei do ouro, proposta pelo autor: “O ouro foge do homem que o emprega em negócios ou propósitos com que não está familiarizado ou que não contam com a aprovação daqueles que sabem poupá-lo”.

Poupe dez por cento da renda trabalhada

Se tem algo em comum nos ensinamentos de personagens fictícios como Arkad, e reais como Buffett e Barsi, é que todo plano de prosperidade começa com a capacidade de poupar recursos. Clason propõe em suas parábolas que as pessoas economizem, no mínimo, um décimo de seus ganhos com o ofício.

Isso pressupõe que os gastos pessoais devem ser reduzidos para proporcionar a capacidade de poupança. A contenção do padrão de consumo é um desafio que a maior parte das pessoas irá enfrentar, caso estejam habituadas a gastar todo o seu rendimento. Para tanto, o personagem Arkad recomenda que as pessoas controlem seus gastos através da anotação sistemática dos mesmos, a ponto de formular um orçamento completo.

No auge da Babilônia, o Oriente Médio ainda não usava o papel, mas já havia a escrita cuneiforme, criada pelos sumérios séculos antes, na mesma região. Os babilônios já eram financistas e anotavam contas a pagar e a receber em tabuinhas de argila, que mediam em torno de 15 por 20 centímetros – quase o mesmo formato do livro em sua edição brasileira.

Estas tabuinhas remanesceram das ruínas da Babilônia quando estas foram redescobertas no século 19. Hoje, no entanto, dispomos de aplicativos de telefone celular para fazer todos os apontamentos necessários para o controle de gastos.

Empregue seu dinheiro de modo lucrativo

A renda obtida através do trabalho – e poupada parcialmente – ainda não é suficiente para garantir a previdência de alguém e de sua família. Tais economias devem ser investidas de forma segura para que se convertam em fonte complementar de renda.

Arkad, o homem mais rico da Babilônia, não teve êxito ao emprestar moedas para um oleiro comprar joias no exterior. O oleiro, inexperiente, foi enganado, levando para casa um amontoado de vidros imprestáveis. De onde se conclui que não se deve empregar recursos em negócios que pareçam aventuras.

Ao financiar um fabricante de escudos para comprar a matéria prima dos mesmos, o bronze, Arkad tem seu primeiro negócio bem-sucedido. Ele fez o aporte em alguém que sabia o que estava fazendo, recebendo parte dos lucros quando os escudos foram vendidos. Neste episódio Clason relata o encontro de duas figuras fundamentais no capitalismo: o investidor e o empreendedor.

Como se trata de uma parábola, o leitor não deve levá-la ao pé da letra, procurando um artesão em sua cidade que faça qualquer objeto decorativo com bronze, por exemplo. Na sociedade moderna, as bolsas de valores são ambientes que promovem o encontro de investidores com empreendedores, através das empresas de capital aberto. Basta que o investidor saiba decidir de quais empreendedores se tornará parceiro.

Longe de ser um livro sobre bolsa de valores, ainda assim “O homem mais rico da Babilônia” consegue tocar em três temas importantes para o mercado de capitais: os dividendos, os juros compostos e a diversificação. Arkad recomenda que os dividendos colhidos nos negócios sejam reaplicados nos próprios negócios, fazendo estes crescerem ainda mais.

As muralhas da Babilônia oferecem proteção

Babilônia era uma cidade fortificada, cercada por muralhas que alcançavam a altura equivalente de um prédio de seis andares, perfazendo um perímetro de cerca de vinte quilômetros. Desde modo os babilônios se protegeram dos invasores durante séculos, usando mão de obra escrava para construir e manter tal sistema de proteção num processo longo e contínuo.

Do mesmo modo o investidor deve buscar proteção para seus recursos, priorizando aqueles que lhe permitem o lento – mas constante – enriquecimento ao longo dos anos. A tentação de aceitar propostas para investimentos com retornos imediatos e elevados deve ser evitada, segundo Clason, antevendo práticas de marketing de guerrilha que inundariam os meios de comunicação, décadas depois, oferecendo consultoria para enriquecimento rápido, ocultando os elevados riscos.

Se vivesse nos tempos atuais, os panfletos de Clason provavelmente seriam convertidos em postagens num blog, onde o autor verificaria que a Internet está repleta de salteadores que aplicam golpes em viajantes desavisados, como acontecia nas caravanas da época da Babilônia.

Roteiro para saldar dívidas

Clason também conta a história de Dabasir, um escravo que se libertou do cativeiro na Síria para se tornar um negociante de camelos, saldando antigas dívidas na Babilônia. Numa alusão a respeito do quanto o endividamento pode escravizar uma pessoa, o autor discorre sobre o que esta deve fazer para também se libertar.

Fugir dos credores não é a solução. É preciso buscar uma solução em conjunto com eles. Alguns credores serão duros nos termos, mas a maioria estará disposta a ceder em alguns pontos, se notarem a disposição do endividado em saldar seus empréstimos. Entre não receber qualquer quantia e recuperar ao menos parte do valor emprestado, o credor sensato escolherá a segunda opção.

Para o autor do livro, o endividado deve proceder da seguinte forma: guardar um décimo de sua renda para si mesmo, reservar dois décimos para quitar as dívidas renegociadas ao longo do tempo, e manter-se com apenas sete décimos da renda, num esforço de disciplina maior que o necessário para sujeitos equilibrados financeiramente.

Enriquecendo – também – o vocabulário

Você sabe o que significa “procrastinação”? É o que as pessoas desejosas em acumular riquezas devem evitar, quando cientes de oportunidades que surgem no cotidiano. Aqueles que sabem o que deve ser feito, mas vacilam diante de situações favoráveis que se apresentam, dificilmente vão quitar dívidas ou empregar com sabedoria o dinheiro poupado. Investir é, acima de tudo, uma questão de iniciativa.

O verbo “procrastinar”, portanto, é compreendido no contexto da narrativa, assim como o termo “tirocínio”: os sujeitos dotados de tirocínio possuem o conhecimento sumário para determinadas práticas – no caso dos babilônios, para gerar riquezas.

Há controvérsias

Todo livro deve ser lido com senso crítico. Não se deve tomar por verdade absoluta tudo o que está impresso e editado. Entre os conselhos que o homem mais rico da Babilônia nos oferece, está o de adquirir a casa própria, nem que seja na base do “financiamento dos tijolos”. Clason reforça o aspecto da estabilidade emocional da família nesta questão.

De fato, nos Estados Unidos, onde os panfletos de Clason circularam inicialmente, a cultura de hipotecar a casa própria é amplamente difundida. Porém, devemos atentar para a realidade brasileira, onde os financiamentos bancários para a compra ou construção de imóveis residenciais consomem até um terço da renda familiar.

Se usarmos os próprios conselhos do livro para debater a questão da casa própria, tomando o financiamento da mesma como contração de dívida, logo veremos que a mesma não deve consumir mais do que dois décimos da renda familiar. Portanto, ao menos no caso dos brasileiros, pagar aluguel e investir o excedente não gasto no financiamento pode ser uma decisão inteligente, para ser discutida com mais atenção.

Quebra de paradigmas

“O homem mais rico da Babilônia” não é um livro que encerra o assunto da educação financeira. No entanto, ele é válido para quebrar os paradigmas daqueles que estão mergulhados numa ciranda de trabalho sem prazer e pagamento de contas.

Este é o tipo do livro que aquele amigo lhe oferece emprestado dizendo: “Você tem que ler isso, cara. Vai mudar a sua vida!” – E o cara que se dispõe a ler em poucos dias responde: “Eu deveria ter lido este livro bem antes. Teria poupado anos de desperdícios”.

Há também aqueles indolentes que respondem: “Ainda não tive tempo de ler”. É o tipo do elemento procrastinador, que nunca terá tirocínio suficiente para debater os conselhos de Arkad e Dabasir.

Um novo templo do saber

Você, que já recomendou com sucesso a leitura de “O homem mais rico da Babilônia” para seu melhor amigo, recomende também que ele faça uma Assinatura Premium na Suno Research, que dispõe de um fórum de investidores que deixariam os babilônios alvissareiros.

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Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor de dois livros, é adepto do “Value Investing”. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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