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    Jesse Livermore: o maior especulador da história (Parte III)

    Conforme prometido, hoje encerro a história de Jesse Livermore, considerado por muitos o maior especulador que já passou pela Terra. Se você ainda não leu as partes anteriores, clique aqui para ler a primeira, e aqui para ler a segunda.

    A traição de Teddy Price e outras perdas

    Jesse cometeu um erro que ele mesmo considerava óbvio. Para piorar, seu “amigo” Price o enganou. Ele estava em posição de short no algodão, enquanto induziu Livermore a comprar. No final das contas, Jesse perdeu US$ 4,5 milhões nesta situação.

    Desta vez, Jesse estava decepcionado consigo mesmo. Ele não apenas estava do lado errado da operação como havia violado uma de suas primeiras regras que aprendeu no mundo da especulação.

    Em 1909, ele estava completamente quebrado. Como se não bastasse, tudo o que ele tocava era transformado em perdas.

    Em certa ocasião, Jesse reconheceu: “Eu continuei operando e perdendo. Persisti em acreditar que o mercado faria dinheiro para mim no final. Mas o único fim, foi o fim dos meus recursos”.

    Em outra situação posterior, Livermore estava conseguindo se recompor, mas acabou sendo usado por um corretor, sem perceber. Desta vez, chegou a acumular dívidas na casa de US$ 1 milhão. Incapaz de pagá-las, teve de declarar falência aos 38 anos.

    Determinado a alcançar um recomeço, Livermore precisava de um empréstimo de algum tipo. No entanto, não conseguia tomá-lo de bancos, devido à sua falência. Então, decidiu recorrer ao corretor que o havia roubado.

    O corretor negou ajuda, mas disse que quando Jesse encontrasse algo interessante, poderia comprar 500 ações. Assim, ele observou o mercado e aguardou a oportunidade perfeita. Em apenas dois dias, ganhou US$ 38 mil. Rapidamente ele atingiu um patrimônio de US$ 200 mil.

    Jesse consegue recomeçar e realiza novos ganhos

    Em 1915, na Primeira Guerra Mundial, as ações subiram em grandes proporções. Foi o melhor ano da história para o Dow Jones, acumulando uma alta de 82%. As ações dobraram em menos de dois anos e, novamente, Jesse estava do lado certo, ele estava bullish em um bull market.

    Quando a Guerra acabou, em 1918, ele voltou para o mundo das commodities. Ao estruturar uma operação formal completa, Jesse estava no topo do mundo, acumulando US$ 20 milhões ao final de 1923.

    No outono de 1929, Livermore construiu sua maior posição de short por meio de alavancagem. Eram US$ 450 milhões espalhados em 100 ações. De 25 de outubro a 13 de novembro, o Dow caiu 32%. Livermore encerrou suas posições, atingindo – em plena crise de 1929 – um patrimônio de US$ 100 milhões, equivalentes a US$ 1,4 bilhões nos dias de hoje.

    Nesta época, Jesse estava em seu auge. Ele era uma das pessoas mais ricas do mundo.

    Após os ganhos na crise, novas perdas gigantescas

    Em julho de 1932, o mercado chegou à sua mínima. Ele estava valendo apenas 11% do que valia três anos antes. Quando o fundo chegou, o “estilingue” estava tão esticado, que as ações experienciaram um rápido retorno a patamares mais elevados. Em 42 dias, o Dow acumulou um aumento de 93%.

    Mas, desta vez, Livermore estava do lado errado. Ele foi esmagado. Após encerrar suas posições de short, ele cometeu seu erro final: resolveu comprar as ações no topo. Após o rápido retorno comentado anteriormente, as ações voltaram a cair, perdendo quase 40% de setembro de 1932 a fevereiro de 1933. Tudo que Jesse havia ganhado no crash de 1929 havia sido perdido.

    Estar no lado errado, e mudar de opinião, também na hora errada, custou caro. Em 1934 ele estava quebrado novamente, e devia US$ 5 milhões a 30 credores.

    Com as novas regras, ficou impossibilitado de jogar o jogo que conhecia

    Jesse declarou falência pela segunda vez, e, ao longo dos anos seguintes, ele mal realizou operações. Estava tendo dificuldades ao tentar se ajustar às novas regras criadas pela Securities and Exchange Commission (SEC). Muitos de seus truques e estratégias agora eram ilegais.

    Certa vez, Jesse refletiu:

    “Em toda a minha vida, eu cometi erros, mas, no que diz respeito a perder dinheiro, eu ganhei experiência e acumulei lições valiosas sobre o que não fazer. Eu quebrei várias vezes, mas minha perda nunca foi uma perda total. Caso contrário, não estaria aqui agora. Eu sempre soube que eu teria outra chance e que eu não cometeria o mesmo erro uma segunda vez. Eu acreditei em mim mesmo”.

    Mas, em 1939, sua tentativa final de voltar às atividades não deu certo. Ele foi incapaz de aparecer com outro milagre. Além disso, estava sem oportunidades.

    Em 29 de novembro de 1940, Jesse tirou sua própria vida.

    Os registros da Corte mostraram que seus ativos (US$ 107 mil) eram bem menores que seus passivos, que totalizavam US$ 463,5 mil.

    As lições que devemos aprender com a história de Jesse Livermore

    Embora Livermore sempre tenha sido lúcido para reconhecer e analisar seus próprios erros, criando para si várias regras que o ajudassem a melhorar, as lições por ele aprendidas não o salvaram de quebrar quatro vezes.

    A real lição que Jesse aprendeu, um tanto tarde, foi a seguinte:

    “Se um homem é tanto sábio quanto sortudo, ele não cometerá o mesmo erro duas vezes. Mas ele fará qualquer um dos dez mil irmãos ou primos do erro original. A família dos erros é tão ampla que sempre existe um deles por perto”.

    Investir é, inerentemente, um ato de incerteza. Deste modo, nunca podemos dizer que não deixaremos um erro acontecer novamente. Claro, existem alguns erros específicos que você não repetirá.

    Mas, como Livermore disse, a família de erros é muito grande para evitá-la por completo. Nada irá mudar o fato de que eventuais perdas fazem parte da atividade de investir. Gerenciamento de risco é parte da atividade de investir. Repetir erros é parte da atividade de investir. É tudo parte de investir.

    Tiago Reis
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    1 comentário

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    • Aparecido Soares de Assis 23 de outubro de 2019

      Muito bom o caso do Jesse Livermore!
      Parabéns por revisitá-lo.
      Muito obrigado.

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