JBS-BNDES

Você sabe como é a relação JBS-BNDES? A empresa de carnes JBS e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) expõem uma das mazelas do país: o capitalismo de compadres.

Então, a união de JBS-BNDES demonstra uma política que, embora possa ter sido boa para os acionistas da JBS, é ruim para o restante dos brasileiros.

A relação JBS-BNDES consistiu na escolha feita por parte do banco público em privilegiar financiamentos subsidiados para a processadora de proteínas, efetivamente criando um conglomerado do setor no país.

Aliás, essa escolha fez parte da política dos “campeões nacionais”, que aconteceu no governo do PT dos últimos 12 anos.

 

A Relação JBS-BNDES

relação JBS-BNDES

No mercado de capitais é muito comum que as companhias, no âmb

ito de seu desenvolvimento, procurem maneiras de se financiarem.

Logo, uma das formas que a JBS encontrou para conseguir recursos foi através de financiamentos do BNDES, realizados em condições muito atrativas.

Para ter uma ideia, de 2002 a 2013, entre empréstimos e participações acionárias (via o BNDESPar) o BNDES aportou na o total de R$ 12,8 bilhões nas empresas controladas pela J&F.  E a principal delas foi a JBS.

Ou seja, além da JBS receber R$ 6,6 bilhões do BNDES, outras empresas do grupo da J&F também receberam financiamento, como:

  • Bertin S.A.
  • Bracol Holding Ltda.
  • Vigor.
  • Eldorado.

Pois então, com essa injeção maciça de capital, a as empresas do grupo cresceram significativamente.

De um faturamento de R$ 4 bilhões em 2006, o grupo cresceu enormemente, atingindo um faturamento na casa de R$ 170 bilhões em 2017.

Abaixo um breve histórico da companhia nesse período:

  • 2007: IPO da JBS no Brasil e entrada no mercado dos EUA.
  • 2008: Expansão das operações na Austrália e EUA.
  • 2009: Aquisição de cinco unidades no Brasil e do frigorífico nacional Bertin.
  • 2010: Expansão na Austrália, Bélgica, EUA.
  • 2011: Emissão privada de ações de R$ 3,48 bilhões.
  • 2013: Aquisição da Seara Brasil.
  • 2014: Aquisição das operações da Tyson no Brasil e México e do grupo australiano Primo Small Goods.
  • 2015: Aquisição da empresa Moy Park, com presença na França, Reino Unido, Holanda e Irlanda.
  • 2017: Aquisição da Plumrose, nos EUA.

De fato, a JBS se tornou uma “campeã nacional”, apenas atrás da Petrobras.

Além disso, os irmãos Joesley e Wesley Batista, controladores da J&F, figuravam entre os homens mais ricos do mundo.

Corrupção sistemática

De fato, o BNDES é um banco que realiza empréstimos baratos para diversas companhias nacionais.

Porém, sem entrar no mérito se essa instituição deveria ou não existir, o fato é que diversas empresas recebem dinheiro do BNDES de forma legal.

Contudo, no caso da JBS, muito desse financiamento foi obtido através de corrupção e favorecimentos.

Ou seja, os irmãos Joesley e Wesley pagaram propinas a diversos políticos e outras pessoas influentes para que as empresas do grupo conseguissem a liberação de empréstimos do BNDES.

Na delação premiada de Joesley Batista, o empresário confessou ter pago R$ 200 milhões em propinas ao ex-ministro Guido Mantega e a outras lideranças do PT para facilitar a liberação de recursos.

Guido Mantega funcionava como o operador desse esquema de corrupção, e chegou a dar uma lista de políticos e partidos para Joesley efetuar as “doações” em 2014.

As teias da corrupção além de JBS-BNDESteias da corrupção JBS-BNDES

O esquema de corrupção criado pela JBS envolvia não se envolvia somente a relação JBS-BNDES.

Segundo Joesley, em 2015 a JBS pagou R$ 20 milhões de propina a Eduardo Cunha, para que este conseguisse aprovação de um projeto que desonerava a folha de pagamento dos produtores de aves.

Além disso, a JBS pagou R$ 10 milhões por ano de propina a políticos do Mato Grosso do Sul, com a finalidade de conseguirem descontos na alíquota de ICMS.

Já os fundos de pensão tinham participação acionária em algumas empresas do grupo J&F.

E para atrair o capital desses investidores institucionais, propinas eram pagas aos dirigentes dos fundos, em um esquema parecido com o do BNDES.

Quando a operação Greenfield, que investiga fraudes nos fundos de pensão, foi deflagrada, novamente a empresa pagou propina milionária a um advogado amigo do juiz da vara onde tramitava o processo.

Outro caso emblemático foi o pagamento de propina para o FI-FGTS para conseguir a liberação de R$ 940 milhões para construção de uma fábrica.

Houve ainda tentativas, por parte da JBS, de influenciar decisões do conselho administrativo de defesa econômica (CADE) em favor de uma usina termelétrica do grupo em Cuiabá.

Crime no mercado de capitais

Por fim, Joesley também pediu a Temer que indicasse pessoas “alinhadas ao governo” na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Wesley Batista cometeu um crime chamado de “insider trading”, que é a negociação de investimentos com base em informações privilegiadas.

Nesse caso, Wesley Batista lucrou R$ 100 milhões com base na valorização do dólar através de contratos no mercado futuro.

O que aconteceu foi que Wesley sabia que a divulgação de sua delação premiada na mídia iria fazer com que o dólar, muito provavelmente, valorizasse.

Assim, ele montou posição na moeda americana antes que a notícia sobre a delação fosse divulgada ao mercado.

Prisão dos irmãos Batista

É de conhecimento de praticamente toda a população brasileira o escândalo que envolveu a JBS e o BNDES no que diz respeito aos financiamentos bilionários fornecidos pela instituição bancária à companhia em troca de “favores amigáveis” por parte de seus controladores.

Os irmãos Batista foram presos preventivamente em Setembro de 2017, e em Fevereiro de 2018, a prisão foi substituída por medidas cautelares.

Na prática, porém, somente Wesley foi solto em Fevereiro.

Joesley possuia um segundo mandato de prisão por causa de omissão de informações em seus depoimentos. Sua soltura foi realizada um mês depois.

Entretanto, mesmo soltos, os dois continuam a responder processos na justiça.

Danos ao BNDES e à JBS

A promiscuidade entre JBS-BNDES levou a consequências graves para as duas sociedades.

O Tribunal de Contas da União (TCU) calculou que o BNDES teve um prejuízo de mais de R$ 5 bilhões com seus investimentos na JBS.

Esse montante é mais do que o triplo do que o valor de R$ 1,75 bilhão que a JBS se comprometeu a devolver ao banco por causa dos esquemas de corrupção.

O BNDES, contudo, contesta a conta do TCU, e afirma que as operações deram lucro de R$ 2,8 bilhões.

Para a JBS, a situação também não está nada fácil.

Além da multa de R$ 10,3 bilhões acertada em 2017, a empresa encerrou o primeiro trimestre de 2018 com uma dívida de mais de R$ 46 bilhões.

Por conta desses comportamentos que foram revelados aos quatro cantos do país, a JBS teve que se desfazer de alguns de seus ativos.

E dessa forma, poder, com isso, honrar uma parte da grande dívida que tinha junto ao BNDES.

No final das contas, o caso JBS-BNDES prejudicou muito a empresa dos irmãos Batista.

Em Junho de 2017, a JBS anunciou um plano de desinvestimentos de R$ 6 bilhões.

Transações entre partes relacionadas

Já em setembro de 2017, por exemplo, a companhia vendeu a totalidade de sua participação acionária na Moy Park para a Pilgrim’s Pride Corporation (PPC).

Essa participação havia sido comprada pela JBS em 2015, por cerca de US$ 1,5 bilhão.

Vale ressaltar, ainda neste sentido, que a JBS controla a Pilgrim’s Pride desde 2009, após pagar 2,8 bilhões de dólares pela participação.

Ou seja, trata-se de uma transação entre partes relacionadas.

E isso poderia favorecer o resultado da compradora, com a redução de gastos com imposto de renda, devido à captação de dívida, além de poder ajudar a controladora a abater dívidas de curto prazo.

A JBS também concluiu a venda de sua participação na Vigor Alimentos. E também vendeu os ativos da Five Rivers Cattle Feeding, fazendas nos Estados Unidos e Canadá, além de ativos na América do Sul.

Pode-se perceber, dessa forma, algo interessante:

Muitos dos ativos da JBS tiveram que ser desfeitos no decorrer do tempo. Esses mesmos ativos que foram adquiridos através de financiamentos conseguidos de maneiras ilícitas junto ao BNDES.

E os desinvestimentos se intensificaram após as graves revelações de seu antigo presidente de Conselho, Joesley Batista.

Joesley Day

michel temer

Quem no Brasil não se recorda do fatídico dia 18 de maio de 2017?

 

 

Esse foi o dia apelidado pela Suno de Joesley Day, quando ocorreu um verdadeiro banho de sangue na bolsa brasileira.

Neste dia ocorreu um evento que chocou o Brasil.

O então presidente do Conselho de Administração da JBS, Joesley Batista, divulgou para toda a imprensa um áudio constrangedor.

Este áudio continha diversas conversas comprometedoras com o presidente Michel Temer. E que revelavam benefícios financeiros milionários para políticos influentes de Brasília, como Eduardo Cunha.

Após os gravíssimos áudios gravados serem revelados por Joesley, a bolsa de valores brasileira despencou.

As ações caíram a patamares que há muito tempo não eram observados em mercados do mundo inteiro.

Inclusive neste dia, o sistema de negociação do Tesouro Direto, a plataforma de títulos públicos para pessoa física, foi interrompido.

Ainda naquela ocasião, as ações da JBS (  ( )), chegaram a desvalorizar mais de 50%.

Praticamente todas, senão todas, as ações com boa liquidez caíram naquele. E os papéis que mais sofreram nesse dia foram as de empresas de capital misto, como a Cemig.

18 de maio de 2017 foi um dia de pânico.

E para a maioria dos participantes de mercado, ficou claro, naquele momento, que a crise havia se estabelecido no Brasil.

E isso ocorreu muito por conta de condutas inapropriadas por parte do BNDES.

Essa entidade deveria, por sua obrigação, fornecer crédito de qualidade e a boas condições as empresas que realmente necessitam.

A decisão de escolher a quem emprestar dinheiro ou de qual empresa comprar ações, deveria ser puramente técnica pelo corpo do BNDES.

E nunca através de favorecimentos que, infelizmente, ocorreram na relação promíscua entre JBS-BNDES.

A postura da Suno – dia de oportunidades

Quem acompanha o trabalho da Suno e entende a filosofia do Value Investing, teve um dia de sorte no dia 18 de maio de 2017.

Diversas ações de boas empresas sofreram desvalorizações significativas, e permitiram aos investidores de longo prazo realizar bons negócios.

Contudo, era necessário ter uma posição em caixa naquele dia.

Isto é, quando a oportunidade surge, é necessário ter uma reserva em renda fixa pós-fixada com liquidez para aproveitá-la.

Luiz Barsi, grande investidor, amigo e mentor da Suno, explica essa postura através da analogia com um Jacaré de boca aberta. Confira sua explicação no vídeo abaixo:

Transcrição

” A analogia do Jacaré é o seguinte:
É porque você assimila a oportunidade, tá entendendo?
Então, o jacaré ele nada mais faz do que aproveitar a oportunidade, não é isso?
Qual a oportunidade?
Ele fica com a boca sempre aberta. E o passarinho vem comer uma comidinha no dente dele, e ele tem a oportunidade de morder.
Jamais, ele, como um réptil, seria o caçador mais competente de passarinho.
Mas ele acaba sendo exatamente por causa da oportunidade. Então, eu utilizo isso como uma fantasia evidentemente para poder explicar mais fácil que a gente tem que ficar com o dinheiro retido, evidentemente aplicado em algum fundo com resgate automático.
Porque ninguém poe o dinheiro embaixo do colchão, e esperar as oportunidades.
Eu tenho a sensação que o Brasil não demora, vai voltar a ser algo de boas oportunidades em termos de mercado. “

Para aproveitar oportunidades, é necessário ter sempre uma pequena parcela de dinheiro.

E a melhor forma de constituir essa reserva é escolher uma aplicação de renda fixa pós-fixada com boa liquidez.

O CEO e fundador da Suno, Tiago Reis, gosta de utilizar Fundos DI.

Existem outras opções interessantes também, como os títulos do Tesouro Selic, ou então, Certificados de Depósito Bancário (CDB) com liquidez diária.

Conclusão sobre a relação JBS-BNDESConclusão JBS-BNDES

Um excelente ponto de partida para evitar escolher ações problemáticas é seguir as orientações de Décio Bazin.

Em seu livro “Faça Fortuna com Ações”, o autor recomenda evitar a participação em empresas de caráter duvidoso.

Ou seja, aquelas que apresentem envolvimento em qualquer tipo de escândalos de corrupção e repercussões do gênero.

Esse foi o caso das empresas JBS-BNDES.

A relação entre a empresa de carnes e o banco de desenvolvimento escancara os problemas de corrupção e favorecimento que existem no país.

Com investimentos volumosos, o BNDES simplesmente escolheu uma companhia para se tornar uma referência nacional.

Tudo em detrimento do dinheiro público e em última instância, do pagador de impostos.

Logicamente as empresas estatais estão mais sujeitas a fraudes de corrupção, conflitos de interesses e outras mazelas.

Contudo, o caso JBS-BNDES vem ressaltar que mesmo empresas privadas podem ter gestores corruptos. No longo prazo, isso destrói valor para o acionista, independentemente dos benefícios de curto prazo.

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Rodrigo Wainberg

Rodrigo Wainberg

Profissional aprovado no Level III da certificação CFA, investidor em ações há 6 anos, possui registro de Analista e Consultor de Valores Mobiliários, e é Bacharel em Física pela UFRGS.