Investindo alem da fama

A negociação mais cara da história futebol, até agosto de 2017, envolve o jogador brasileiro Neymar. O Paris Saint Germain depositou para o Barcelona uma multa de rescisão contratual no valor aproximado de 820 milhões de reais.

Estima-se que o salário anual do craque brasileiro será de 100 milhões de reais. Neymar tem apenas 25 anos de idade.

O que transparece para o grande público é que Neymar é rico, famoso e talentoso. Que explodiu do nada feito uma estrela cadente a riscar a abóbada celeste. Poucos atentam para o fato de que sua carreira já tem 14 anos.

O garoto começou a treinar nas divisões de base do Santos aos 11 anos de idade e, desde então, todos os seus passos são orientados pelo seu pai e empresário.

Apesar de rico e famoso, Neymar não desfruta da liberdade de ir e vir. Seus contratos esportivos e de publicidade o amarram a eventos que vão preencher sua agenda por anos.

Você quer ficar jovem para sempre?

Se retrocedermos cinco décadas, veremos que outro jovem de 25 anos de idade estava na crista da onda. Paul McCartney, então baixista dos Beatles, era o mentor intelectual do álbum de rock que dividiu a história da música popular em duas partes.

“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” representava o clímax de uma geração revolucionária.

Os Beatles estavam no olho de um furacão. Eram cinco anos de Beatlemania ininterrupta. No entanto, poucos lembram que os rapazes de Liverpool haviam passado outros cinco anos na obscuridade, tocando em bares e casas noturnas de cidades portuárias como Hamburgo, na Alemanha.

Mesmo assim, ainda eram muito jovens que ficaram milionários muito cedo, subvertendo a lógica do enriquecimento no longo prazo.

Os Beatles, assim como Neymar, estavam comprometidos contratualmente. No caso, com a gravadora EMI Odeon. Eles se separaram em 1970, mas o contrato só venceu oficialmente em 1975.

Naquele ano Paul McCartney já estava com 33 anos de idade. Se fosse jogador de futebol, sua carreira já estaria em declínio. Apesar de ricos e famosos, os Beatles nunca foram independentes plenamente.

Mercadores de ilusões

Mas isso pouco importa para a mídia. O que os jornais, revistas e programas de televisão enfatizam para seu público é o glamour que combina talento, juventude, fama e dinheiro. É isso que desperta a admiração nos fãs das estrelas da música pop e dos gramados.

Também é isso que causa a inveja e mexe com a vaidade de muita gente, de modo que estas pessoas são incentivadas a consumir tudo o que é relacionado aos tais ídolos.

É da natureza do ser humano querer progredir e sonhar com uma vida melhor. O jovem de hoje vê o Neymar passeando de iate nas imediações de Saint-Tropez e imagina que poderia fazer o mesmo um dia.

Os jovens da década de 1960 talvez preferissem ambicionar ter um Aston Martin DB5 na garagem, igual ao do Paul McCartney – igual ao de James Bond. As agências de publicidade conhecem muito bem tal comportamento e exploram eficientemente o mesmo.

Lucrando com a vaidade alheia

O perigo mora ao lado quando certas agências de publicidade miram no mercado financeiro, oferecendo serviços de consultoria que não podem entregar com garantias, como as promessas de enriquecimento rápido.

Banners pululam nas telas de computadores e celulares apresentando, por exemplo, estratégias mirabolantes capazes de fazer o capital do investidor render até 2.347,72% ao ano, para quem assinar a newsletter.

O que impressiona quem tem um mínimo de bom senso não é o número estratosférico antes da vírgula, mas a precisão da casa decimal depois dela.

Para acompanhar o canto da sereia, a propaganda tem a imagem de um sujeito de óculos escuros sorvendo tequila numa praia do Caribe, junto de uma modelo bronzeada.

Você acreditaria num anúncio que prometesse lhe entregar o segredo que fez de Neymar o jogador de futebol mais caro da história?

Não soaria como piada se alguém pudesse lhe revelar, mediante o pagamento antecipado de um valor razoável, os cinco truques que fariam de você e sua banda os novos Beatles do século 21? “Aprenda a compor músicas como John Lennon & Paul McCartney usando apenas três acordes”. Isso não existe.

Porém, infelizmente existe um público ávido por informações para obter enriquecimento rápido. A decepção é a única certeza. O enriquecimento rápido até existe neste caso, mas para quem vende as ilusões.

Não se compra sorte e talento na esquina, pois são artigos que ninguém pode comercializar.

Quando o tempo está ao seu lado

Obter a independência financeira através do mercado de capitais é plenamente possível, mas trata-se de um processo que, na maioria esmagadora das vezes, leva vários anos para apresentar resultados, justamente por não depender de fatores como sorte e talento. Ao invés disso, dependem de disciplina, paciência e perseverança.

Aos 25 anos de idade Luiz Barsi Filho não era, nem de longe, um sujeito rico. Ele estava ensaiando os primeiros passos na Bolsa de Valores de São Paulo, comprando ações da CESP com o excedente de seu salário, enquanto os Beatles cantavam “It’s getting better all the time” (algo como “está ficando cada vez melhor” em português) no fim da década de 1960.

E a carreira de um investidor de longo prazo tem justamente este aspecto: de ficar melhor a cada dia que passa. Enquanto jogadores de futebol encerram suas carreiras nos gramados entre 35 e 40 anos de idade – quando muitos conhecem a ladeira do ostracismo e das perdas financeiras advindas da má gestão de seus ganhos – muitos investidores do mercado de capitais ainda estão esquentando os motores.

Certa vez, Barsi declarou que se percebeu independente financeiramente por volta dos 55 anos de idade – três décadas depois de começar a investir no mercado de capitais.

Nesta fase da vida, Paul McCartney seguia como ex-beatle, ainda muito cultuado, mas longe das paradas de sucesso nas rádios já há alguns anos.

Prestes a completar 80 anos de idade, Barsi segue colhendo resultados financeiros cada vez melhores. Enquanto o Paris Saint Germain desembolsava a multa milionária para o Barcelona, para ter o jogador Neymar, a Unipar Carbocloro – cujo valor de mercado é inferior ao valor da mesma transação esportiva – anunciava uma distribuição recorde de dividendos, dos quais quase 60 milhões de reais foram destinados exclusivamente para a conta pessoal de Barsi.

Você também pode empregar gente famosa

Nos Estados Unidos, o megainvestidor Warren Buffett comanda a Berkshire Hathaway. Entre 1989 e 1991 a empresa com sede em Omaha, no Nebraska, adquiriu cerca de 10% das ações da Gillette, famosa mundialmente por causa dos aparelhos descartáveis de barbear.

Buffett não precisa vender estes utensílios em comerciais para a televisão. Quem faz isso para ele são jogadores de tênis e futebol, como Federer, Messi e… Neymar.

Buffett conta com 86 anos de idade. Ele investe no mercado de capitais há mais de 60 anos.

Com pouco mais de 25 anos fundou sua primeira sociedade de investimentos com apenas 100 dólares. Treze anos depois ele deixou a mesma sociedade com um patrimônio de 25 milhões de dólares, beirando os 40 anos de idade, quando o jornalismo especializado no mercado financeiro começou a notar seu nome.

Até então, Buffett era só um caipira do interior disposto a escrever cartas anuais para os acionistas de sua empresa.

Desde os anos de 1970 ele vem revelando seu método de investimentos, que não guardam segredos e seguem os preceitos do “Value Investing”, com lições aprendidas de Benjamin Graham a respeito da “Margem de Segurança” e do comportamento diante das flutuações do mercado.

Liberdade para progredir

Investidores de longo prazo como Buffett e Barsi continuam trabalhando diariamente. Não por obrigações contratuais, mas por entusiasmo. Se decidirem tirar férias numa terça-feira às 10 horas da manhã, eles não precisam da autorização de agentes ou de consultas no departamento de marketing onde não batem o ponto.

Eles não precisam vestir camisas da Nike em suas entrevistas. Se desejarem, eles podem comprar ações da empresa e receber dividendos pela venda de material esportivo.

Ao respeitarem a lógica do enriquecimento em longo prazo, eles subverteram a lógica que rege a maioria das atividades humanas. Barsi e Buffett não se encontram num ciclo de decadência.

Eles continuam a caminho do topo. A idade não lhes representa um impeditivo: ao contrário. Embora tenham aproveitado oportunidades de investimentos, eles nunca contaram com a sorte. Não há registros de que tenham dons naturais para jogar bola ou tocar guitarra.

Você pode ser muito bom em esportes, mas não há garantias de que você fará fortunas com isso. Você pode tocar contrabaixo melhor que Paul McCartney e sabe que isto não será suficiente.

Porém, a boa notícia: a independência financeira está ao seu alcance. Saiba, porém, que ela não vem subitamente.

Citamos dois expoentes do mercado financeiro mundial, mas existem milhares de investidores de longo prazo anônimos e independentes financeiramente.

Além de cultivar a disciplina e a paciência com perseverança, eles conseguiram dominar a vaidade em dois aspectos: para controlar o padrão de consumo e para desfrutar da liberdade de ir e vir, que os grandes astros dos esportes e das artes não possuem.

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Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor de dois livros, é adepto do “Value Investing”. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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