Por: Tiago Reis

Investir em ações não é investir em governos

Uma das preocupações mais comuns dos investidores iniciantes é o medo de que a interferência de determinado governo na economia ou política tire a atratividade do investimento em ações. Mais recentemente, estes medos se acentuaram, visto estarmos diante de um cenário eleitoral bastante tenso e com desfecho ainda incerto.

É lógico que determinadas políticas, sobretudo aquelas de cunho intervencionista, tendam a ser vistas pelo mercado como algo negativo, o que faz com que algumas (ou várias) ações sofram em decorrência destas medidas.

Em alguns casos, são efeitos especulativos, decorrentes de boatos, projetos de lei ainda não aprovados, ou outros rumores que possam ser interpretados como negativos a determinadas empresas. Nestes casos, as ações destas empresas afetadas podem sofrer, apesar dos fundamentos permanecerem intactos. Criam-se oportunidades.

Já em outros casos, a interferência governamental pode de fato afetar negativamente determinado segmento da economia. É possível que determinadas medidas e leis aumentem a tributação de determinado setor, reduzam incentivos fiscais, facilitem a competição de produtos importados, dificultem novos investimentos, alterem leis trabalhistas, etc.

Mas será que esta interferência efetiva dos órgãos públicos na economia é algo com que o investidor deva se preocupar?

A resposta é não.

Abaixo traduzi o que Buffet falou na entrevista do seu aniversário de 88 anos:

“Eu tenho comprado ações desde 11 de março de 1942, independente de quem foi o presidente. Foram sete republicanos, sete democratas.

Eu não sei responder quando comprar ações, mas sim, se você deveria comprar ações”.

Lógico que se o Brasil virasse uma Venezuela (o que algumas pessoas ainda acreditam que possa acontecer) o investimento em ações não valeria nada, pois as empresas não teriam mais um ambiente saudável para operar de maneira lucrativa.

Mas neste caso, qualquer investimento seria inútil em um horizonte razoável de tempo. Títulos pré-fixados seriam corroídos pela inflação, assim como os pós-fixados em taxa de juros ou inflação (índices de preços reais são muito maiores do que divulgados).

De fato, o índice de ações Venezuelana vem desempenhando abaixo da inflação. Imóveis seriam uma opção? Talvez, mas quem poderia comprar propriedades ou alugar imóveis corrigidos pela inflação faltando comida nas ruas?

Voltando para cenários menos catastróficos, o investimento em ações geralmente prospera sob qualquer cenário político.

Por quê? Existem alguns motivos.

Às vezes o mercado exagera no desconto após alguma medida política desfavorável. É o caso da MP 579, que afetou negativamente o setor elétrico. Entretanto, o desconto dado às ações do segmento, como Eletrobras, foi superior ao que seria justificável pelo efeito prático desta medida. Assim, criou-se uma tremenda oportunidade e por este motivo, Luiz Barsi disse que a Dilma “merecia um beijo na boca”.

Em outros casos, o desconto é justo, mas o efeito é temporário. E ao longo do tempo, as empresas de uma forma ou de outra conseguem se adequar a nova regulação. Uma empresa é um organismo vivo, adaptável, que se molda conforme o seu ambiente de atuação.

Realizaram uma entrevista recentemente com Barsi, perguntando se ele venderia suas ações caso o Lula ou Haddad fosse eleito. Ele brincou que poderiam colocar o chefe do PCC para comandar o país que ele não venderia.

Afinal, Barsi investe em empresas cuja demanda é praticamente uma certeza, como de saneamento ou energia. Afinal, quem irá deixar de pagar conta de luz ou água?  Lembre-se de que ele investe em ações desde a década de 60 e, assim como Buffet, também já passou por vários presidentes, incluindo ditadura militar e períodos de hiperinflação.

Existem empresas centenárias no Brasil, que prosperaram sob os diversos cenários políticos.

Mais recentemente tem-se discutido a possiblidade de tributar dividendos. Não temos dúvida de que se for aprovado, será algo ruim para o investimento em ações. Afinal, sua renda imediata irá diminuir e é provável que as ações de pagadoras de dividendos também desvalorizem.

Mesmo assim, o investimento em ações continuará viável.

Talvez as empresas repassem esse tributo na cadeia de produção, ou os impostos na cadeia diminuam para compensar, ou então, as empresas mudem sua política de distribuição, passando a recomprar mais ações.

Ainda, o crescimento dos lucros poderá surpreender positivamente com um Brasil mais robusto, ou então, a cotação das ações de dividendos irá se acomodar em patamares mais baixos e os yields de mercado aumentarão, neutralizando parcialmente a tributação para aqueles que ainda estão começando a sua carteira previdenciária.

Resumindo, são vários cenários que podem ocorrer. E para investir com sucesso, não é preciso ficar se preocupando à toa com quem será o novo presidente ou outros assuntos de política.

Foque nos negócios que você tem em carteira. É muito provável que os gestores de boas empresas continuem a se adaptar para continuar ganhando dinheiro. E assim você irá ganhar também.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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