Por: Tiago Reis

Investimento Conservador – Parte IV

O conservadorismo no universo dos investimentos é um tema bastante controverso, com diversos indivíduos defendendo crenças distintas. Alguns investidores associam a classe de rentabilidade do ativo ao nível de risco, porém, este pensamento está equivocado.

Um investimento em renda fixa não se torna mais conservador apenas por possuir este título. Da mesma forma que um investimento em renda variável pode ser muito mais conservador do que um investimento em renda fixa.

Um título de dívida pode trazer inúmeros riscos que, em determinados casos, supera em muito os riscos de um investimento conservador em ações. Por esse motivo, resolvi esclarecer este ponto escrevendo uma série de quatro partes, onde apresentei a visão do escritor e investidor americano Philip Fisher acerca do que determina um investimento conservador.

Como apresentado nas partes anteriores deste texto, Fisher defende, em seu livro Common Stocks and Uncommon Profits, que um investimento conservador deve se qualificar em quatro dimensões.

Na Parte I, abordei a primeira dimensão, onde, para que a empresa se configure como um investimento conservador, deve apresentar excelência em suas principais atividades, o que garantirá a rentabilidade atual e futura.

Na segunda parte, apresentei a importância dos recursos humanos para manter a excelência nas atividades da empresa. Uma gestão competente, atenta para as dinâmicas do setor em que está inserida, com capacidade de construção de um ambiente de trabalho que agrade todos os colaboradores, é fundamental para a qualificação da companhia na segunda dimensão do investimento conservador de Philip Fisher.

A terceira parte do texto introduziu o leitor à terceira dimensão do investimento conservador, onde Fisher defende que a empresa deve possuir certas características inerentes ao modelo de negócios para que consiga sustentar margens de lucro superiores à de seus pares da indústria, de maneira a assumir uma posição de vantagem em relação à concorrência.

Por fim, no presente texto, abordarei a quarta dimensão do investimento conservador, na qual Philip Fisher defende que uma análise das expectativas do mercado em relação à empresa é fundamental para que a companhia que se qualifica nas três dimensões anteriores se configure, de fato, como um investimento conservador.

Primeiro é necessário compreender o que determina os movimentos dos preços dos ativos negociados no mercado de capitais. Philip Fisher defende que os grandes movimentos de preços de uma ação específica em relação ao mercado ocorrem por uma mudança na avaliação que a comunidade financeira faz de uma ação.

Com comunidade financeira, o autor busca agrupar todos os agentes econômicos (indivíduos ou instituições) aptos ou suficientemente interessados em comprar ou vender uma ação particular em determinado preço, ponderando os agentes de acordo com seu poder de compra e venda.

O conceito de avaliação é de extrema importância nesta definição, pois envolve a subjetividade. A avaliação que cada agente do mercado utiliza para fundamentar sua decisão de compra e venda de ativos é diferente e, portanto, nem sempre está correta ou de acordo com a realidade da empresa.

Assim, uma empresa pode passar longos períodos em que seus fundamentos estão sendo subavaliados e, portanto, a ação da companhia está sendo negociada abaixo de seu valor intrínseco.

Por outro lado, o mercado pode ter expectativas elevadas sobre uma empresa que não possui fundamentos para sustentar tais expectativas, o que faz com que a empresa seja negociada a patamares bem acima de seu valor intrínseco.

Considerando tal fato, Philip Fisher criou uma escala com cinco classes de ações em ordem crescente de risco e, portanto, decrescente em termos de investimento conservador.

A primeira classe de ativos e, por consequência, as ações que se configuram como o investimento mais conservador da escala, envolve empresas que se qualificam para as três dimensões do investimento conservador anteriormente mencionadas, e que são negociadas com um grande desconto para seu valor intrínseco.

Essas empresas são difíceis de encontrar, pois, na maioria dos casos, as empresas sólidas que se qualificam para as três primeiras dimensões do investimento conservador não são negociadas com desconto para o valor intrínseco. Entretanto, em momentos em que as expectativas do mercado estão baixas, podemos encontrar ativos nesta classe.

A segunda categoria envolve empresas que se qualificam para as três dimensões anteriormente mencionadas, porém que são negociadas próximo ao valor justo. Essas empresas se configuram como um bom investimento, pois a excelência das atividades e gestão garantem crescimento futuro e reduzem os riscos do investimento.

A terceira classe de ativos começa a apresentar riscos maiores, entretanto, ainda pode ser um bom investimento para os investidores conservadores. Essa categoria é composta por empresas que se qualificam para as três primeiras dimensões do Philip Fisher, porém, devido aos fundamentos excelentes, as empresas são negociadas com expectativas muito elevadas, que chegam a superar os fundamentos apresentados. São empresas que todas as pessoas conhecem e reconhecem como companhias excelentes.

Existe ainda uma quarta categoria de ativos onde os riscos são maiores. Neste caso, as empresas não possuem fundamentos excelentes, entretanto, as expectativas do mercado são ainda menores. Assim, as empresas, apesar de não apresentarem as qualidades necessárias para se qualificarem nas três dimensões anteriormente mencionadas por Philip Fisher, são negociadas a um preço inferior ao valor intrínseco.

Por fim, existe uma quinta classe de ativos, que envolve as ações com o maior risco do mercado de capitais. As companhias contidas nesta categoria apresentam fundamentos insuficientes para se qualificarem nas três primeiras dimensões do investimento conservador. Além disso, a comunidade financeira possui expectativas elevadas acerca do ativo e precifica a ação muito acima do valor intrínseco. O investidor conservador deve se distanciar desta classe de ativos, pois estas ações envolvem riscos elevados e os retornos altos são pouco prováveis.

Como podemos perceber, o investidor conservador deve se ater aos ativos que se qualificam nas quatro dimensões do investimento conservador descritas por Philip Fisher em seu livro Common Stocks and Uncommon Profits. Estes ativos possuem os menores riscos dentro do mercado de capitais e prometem grande potencial de retorno, pois são empresas com elevada qualidade, adquiridas por um preço descontado de seu valor intrínseco.

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Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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