Por: Tiago Reis

Investimento Conservador – Parte III

Muitos indivíduos acreditam que investem de forma conservadora por possuírem boa parte de seu portfólio alocado em renda fixa. É importante ressaltar que renda fixa e variável são conceitos associados à rentabilidade dos investimentos. Muitas pessoas acreditam que o conceito está associado ao risco dos investimentos, entretanto, este pensamento está equivocado.

Para esclarecer o conceito de investimento conservador, reuni algumas ideias do escritor americano do Século XX, Philip Fisher, que publicou extensa literatura acerca do tema.

Philip Fisher, em seu livro Common Stocks and Uncommon Profits, alega que o investimento conservador deve se qualificar em quatro dimensões. Na Parte I deste texto, abordei a primeira dimensão, onde, para que um investimento seja considerado conservador, a empresa deve apresentar excelência em suas atividades principais, o que garante a rentabilidade atual e futura.

Na segunda parte do texto, introduzi a segunda dimensão do investimento conservador, onde mostrei que Philip Fisher acredita que um investimento conservador também está relacionado aos recursos humanos que estão por trás da gestão e operação da empresa.

Uma companhia atenta às dinâmicas do mundo, cultivando uma cultura organizacional sólida e que motive seus funcionários, com uma gestão voltada para a maximização da geração de valor para o acionista no longo prazo é de suma importância para que o investimento se qualifique como conservador.

Invista como Warren Buffett

No presente texto, abordarei o que Philip Fisher acredita ser a terceira dimensão do investimento conservador. O investidor americano afirma que a empresa deve apresentar algumas características inerentes ao negócio que garantem rentabilidade elevada e sustentável no longo prazo.

Inicialmente, explicarei o motivo da rentabilidade ser extremamente relevante na análise da segurança de um investimento. O objetivo de grande parte dos investidores é obter uma rentabilidade elevada, contudo, muitos deles pensam dessa maneira exclusivamente com a finalidade de maximizar seus retornos, e não de minimizar seus riscos.

Uma rentabilidade elevada, entretanto, pode minimizar os riscos do investimento. Existem diversas formas de quantificar a rentabilidade de um investimento. Para fins didáticos, considerarei o ROE (Return on Equity).

Três direcionadores definem o ROE, são eles, a margem de lucro, o giro e a alavancagem. Para explicar a importância da rentabilidade e, mais especificamente, da margem de lucro na análise da segurança de um investimento, consideremos a alavancagem constante.

Neste caso, existem duas formas de uma empresa elevar sua rentabilidade. A empresa pode operar com maior margem de lucro ou com maior giro. Do ponto de vista da rentabilidade, não importa se a empresa possui um giro muito alto ou uma margem muito alta, desde que ela atinja a rentabilidade esperada.

Entretanto, quando pensamos sob a ótica do investimento conservador, apenas a margem de lucro é relevante. Imagine uma situação em que existem duas empresas que atuam no mesmo segmento, a Empresa A e a Empresa B.

A Empresa A possui um giro duas vezes maior do que a empresa B, entretanto, opera com metade da margem de lucro, o que torna a rentabilidade das duas empresas semelhante. Do ponto de vista do crescimento de patrimônio, as empresas apresentam a mesma atratividade, entretanto, quando pensamos em um investimento conservador, notamos que uma empresa é mais interessante do que a outra.

Considere um ciclo inflacionário em que as empresas não conseguem repassar os custos para os clientes através de elevação dos preços. A Empresa A, com suas margens apertadas, terá dificuldades em sobreviver com um aumento de custos. Já a Empresa B, apesar de possuir um giro menor, pode vivenciar um aumento de custos sem que suas margens sejam zeradas e a empresa passe a operar com prejuízos operacionais.

A margem elevada apresenta uma vantagem para a Empresa B e, no mundo corporativo, qualquer vantagem atrai concorrentes. A Empresa B deve usufruir de características que sustentarão as margens e, portanto, a rentabilidade elevada ao longo do tempo para que se qualifique na terceira dimensão do investimento conservador.

Existem algumas maneiras de proteger as elevadas margens de lucro. A primeira delas é através do estabelecimento de um monopólio. Por mais que, em boa parte dos casos, essa prática seja ilegal, em determinadas situações (como no caso de patentes), o monopólio pode garantir elevadas margens de lucro. O grande problema com monopólios é que eles podem acabar subitamente e, portanto, não se configuram como um bom veículo de investimentos para um investidor conservador.

Por outro lado, as empresas podem proteger seus lucros ao operarem com eficiência muito superior à de seus concorrentes. Esse ponto é conhecido como vantagem competitiva. Por vezes, empresas sustentam vantagens competitivas que impedem que a concorrência replique seu modelo de negócios e ameace seus lucros.

Existem diversas maneiras de uma empresa conquistar essa posição de vantagem. Em seu livro, Philip Fisher destaca duas formas. Em primeiro lugar temos a economia de escala. Essa vantagem ocorre quando uma empresa possui um volume produtivo muito superior aos seus concorrentes, e isso faz com que seus custos sejam diluídos em um volume muito maior de produtos vendidos, o que reduz o custo por unidade produzida.

Nesta situação, caso a empresa comercialize seus produtos na mesma faixa de preço da concorrência, por possuir uma estrutura de custo que proporciona custos unitários inferiores, a empresa opera com uma margem de lucro maior.

Desde que mantenha a qualidade de seus produtos e serviços, dificilmente a companhia perderá tal vantagem competitiva e, portanto, a economia de escala possibilita sustentar margens de lucro superiores às da concorrência.

Outro ponto levantado por Fisher é o desenvolvimento tecnológico. Empresas que detêm tecnologia difícil de desenvolver, seja pelo custo elevado ou pela curva de aprendizado extensa, conseguem sustentar elevadas margens de lucro devido à impossibilidade de a concorrência replicar seus produtos ou serviços.

Seja qual for a característica que sustente a rentabilidade elevada, para que uma empresa se qualifique na terceira dimensão do investimento conservador, ela deve possuir alguma característica inerente ao negócio que permita que a companhia assuma uma posição de vantagem perante a concorrência. Não podemos afirmar que a posição favorável perdurará indefinidamente, mas temos que nos atentar para o fato de que a vantagem deve ser construída de tal forma que a empresa conseguirá sustentá-la no longo prazo.

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Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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