Por: Tiago Reis

Investimento Conservador – Parte I

Muitas pessoas se dizem investidores conservadores, entretanto, boa parte delas não sabe o que configura um investimento conservador. Existe uma diferença muito grande em agir de forma convencional e agir de maneira conservadora.

A falta de conhecimento acerca do mercado financeiro leva muitas pessoas a acreditarem na falácia de que renda fixa é um investimento conservador ao passo que ações são investimentos arriscados.

Existem muitas ações que se configuram como investimentos muito mais conservadores do que diversos produtos de renda fixa. O que define um investimento de renda fixa é a rentabilidade estar fixada no momento da contratação do produto. A rentabilidade pode ser pré-fixada ou pós-fixada, entretanto, ela deve ser estipulada no momento da contratação.

Perceba que nada se sabe sobre os riscos do investimento e, portanto, sobre a possibilidade de este ser um investimento conservador. Existem muitas debêntures, por exemplo, que se mostram como investimentos de alto risco devido à capacidade de pagamento da empresa que a emitiu.

Por outro lado, existem diversas ações que se configuram como investimentos conservadores. O que define, então, um investimento conservador?

Segundo Philip Arthur Fisher, grande investidor do século XX e autor de diversos livros, entre eles, Common Stocks and Uncommon Profits, um investimento conservador é aquele que possui grandes chances de conservar o poder de compra com um risco mínimo.

Além disso, o autor defende que investir de maneira conservadora envolve compreender o que é um investimento conservador e seguir um curso de ação que determinará quais veículos de investimento são de fato investimentos conservadores.

Portanto, precisamos compreender quais são as qualidades necessárias a um investimento conservador para que possamos analisar nossos investimentos a ponto de compreender se estamos, ou não, investindo de maneira conservadora.

Fisher qualifica um investimento conservador segundo quatro dimensões. Hoje apresentarei a primeira dimensão, retirada do livro supracitado.

A primeira dimensão de um investimento conservador envolve algumas características operacionais que a empresa deve possuir para que o investimento se enquadre na definição de Fisher, ou seja, para que o investimento tenha grandes chances de conservar o poder de compra com um risco mínimo.

Invista como Warren Buffett

Produção com baixo custo

A primeira característica que Philip Fisher julga necessária a um investimento conservador é a capacidade de uma empresa em manter custos produtivos mais baixos do que os custos de seus concorrentes.

Este ponto é extremamente relevante, principalmente em momentos de recessão econômica. Uma empresa que possui estrutura de custo mais eficiente do que a concorrência tende a operar com margens maiores e boa flexibilidade de precificação.

Isso significa que, em momentos de crescimento das vendas, a empresa consegue sustentar margens superiores e, portanto, consegue gerar fluxos de caixa maiores do que seus concorrentes.

Por outro lado, em momentos de recessão, quando a competição aumenta e as empresas tendem a reduzir os preços na tentativa de não perder participação no mercado, essas empresas conseguem reduzir os preços a níveis inferiores à concorrência, pois possuem uma estrutura de custos mais eficiente.

 

Estrutura de marketing sólida e eficiente

Na complexidade e dinâmica do mundo em que vivemos, um bom departamento de marketing deve estar alerta às mudanças no comportamento dos consumidores, com o objetivo de compreender tais mudanças de modo a atender os novos desejos dos clientes.

Compreendida a dinâmica do mercado, a empresa deve comunicar de forma eficiente as vantagens dos seus produtos e serviços aos seus potenciais clientes. Assim, uma estratégia de comunicação sólida deve ser elaborada para que os resultados sejam satisfatórios.

A falha na execução da estratégia de marketing pode causar à companhia perda significativa de participação de mercado. Além disso, uma estratégia pouco eficiente pode elevar os custos de marketing sem aumento proporcional das receitas, o que reduz os lucros e as margens da empresa.

Deste modo, é de suma importância que a empresa possua um departamento de marketing que consiga compreender a dinâmica das mudanças do comportamento do consumidor e executar uma estratégia de marketing eficiente de modo a maximizar sua geração de valor.

Equipe técnica e de pesquisa excepcional

Algumas décadas atrás, a habilidade técnica era restrita a algumas empresas que atuavam em um nicho de indústrias que demandavam tal habilidade. Entre elas, podemos citar as indústrias aeroespacial, química e farmacêutica.

Com o avanço tecnológico, esta área tem ganhado cada vez mais relevância em todos os setores da economia. Seja em bancos, seguradoras, varejistas ou empresas de manufatura, o departamento de pesquisa e desenvolvimento e uma equipe técnica de qualidade são fundamentais para que a empresa mantenha a competitividade.

Os esforços técnicos, atualmente, são direcionados a duas frentes. Em primeiro lugar, existe a função da criação, onde a empresa deve desenvolver produtos novos e melhores. Em segundo lugar, a empresa deve buscar eficiência, mantendo o desenvolvimento de novos produtos a um custo baixo.

A dificuldade enfrentada por esta área da empresa está em desenvolver produtos que tenham alta demanda, que podem ser comercializados pela organização de marketing já existente na companhia e que podem ser fabricados a um custo que garantirá lucros satisfatórios.

 

Departamento financeiro competente

O elemento mais importante de um departamento financeiro é o controle das informações. Com um controle de custos eficiente, a empresa é capaz de direcionar seus esforços de modo a ampliar suas margens e melhorar a alocação de capital.

Deste modo, o departamento guia os investimentos para os projetos mais rentáveis, maximizando a geração de valor para os acionistas. Assim, a empresa mantém o Retorno sobre o Capital Investido (ROIC) acima do custo de capital.

Um departamento financeiro habilidoso e competente é capaz, portanto, de sustentar a primeira definição de Fisher acerca de um investimento conservador. Elevando o Retorno sobre o Capital Investido, a empresa se torna um investimento que amplia as chances de conservar o poder de compra do investidor com um risco minimizado.

Podemos perceber, portanto, que uma empresa que se qualifica na primeira dimensão do investimento conservador, segundo Philip Fisher, é aquela que consegue manter sua produção com vantagens de custo em relação aos concorrentes, sustentando uma equipe técnica, financeira e de marketing eficiente e integrada de modo a maximizar a geração de valor para os acionistas sem absorver elevados riscos desnecessários.

A Parte II do texto dará continuidade ao pensamento de Philip Fisher, abordando outras dimensões do investimento conservador.

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Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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