Por: Tiago Reis

Inflação, o terror da década perdida

A década de 1960 foi marcada por um importante acontecimento político na história do Brasil, o golpe militar de 1964. Com o golpe, os militares assumiram o controle do país e implantaram uma política positivista que buscou o desenvolvimento do país através do elevado endividamento.

O golpe foi ocasionado, entre outros fatores, pelo intenso processo inflacionário vivido no período. Na década anterior, o país não conseguiu conter a inflação que culminou em 92.1% no ano do golpe.

A entrada do governo militar freou o processo inflacionário em um primeiro momento, levando ao patamar de 19.3% ao ano em 1970. Os números continuaram caindo até 1973, quando a inflação atingiu a marca de 15.6%.

Em 1973, a eclosão da crise do petróleo levou o Brasil ao descontrole inflacionário. Tal processo é reflexo da mudança nos preços internos por força do aumento nos preços das importações.

Uma vez repassado o aumento dos preços aos produtos, o processo inflacionário iniciou uma escalada sem precedentes que se estendeu até o inicio da década de 1990.

Na tentativa de desenvolver sua estratégia, o governo militar levou o Brasil a um crescente endividamento externo. A dívida externa líquida, que era de apenas US$6 bilhões em 1973, atingiu a marca de US$60 bilhões em 1979 e saltou para US$100 bilhões em 1982, o que representava aproximadamente cinco vezes as receitas de exportação no ano.

Com o crescente endividamento e a incapacidade do país em honrar seus compromissos onerosos, o Fundo Monetário Internacional impôs políticas de ajustamento externo, visando equilibrar o balanço de pagamentos do país.

Os ajustes eram fundamentados na crença de que os desequilíbrios externos decorrem de excesso de demanda agregada. Assim, o FMI estipulou medidas voltadas para a redução do consumo e dos investimentos internos.

O impacto das medidas adotadas sobre os custos do sistema produtivo e sobre os preços dentro da economia brasileira foi inevitável. A inflação no país se elevou a patamares jamais antes vistos e, no ano de 1983, atingiu a marca de 211%.

Em paralelo às medidas impostas pelo FMI, a economia brasileira enfrentou aumento das taxas de juros reais, dentro de uma linha de política monetária de cunho ortodoxo. Tal política suprimiu a oportunidade de utilizar a redução do componente de custo (encargos financeiros) como medida para conter o processo inflacionário, o que se mostrou desastroso.

A situação dramática do país na década de 1980 culminou numa taxa de inflação anual na ordem de 1.782,9% em 1989. Uma série de planos econômicos foram utilizados na tentativa de conter o processo inflacionário, porém não se mostraram eficientes.

Com o mote comum de congelamento de preços e salários, a ineficiência dos planos implementados nos governos José Sarney (1985-1990) e Fernando Collor de Mello (1990-1992) se mostrou evidente, elevando a inflação para 2.700% no ano de 1993.

Após o impeachment de Fernando Collor em 1992, o então vice-presidente Itamar Franco assumiu o controle do país. A principal demanda era a melhoria da gestão econômica e a principal figura no cenário político era o Ministro da Fazenda.

Em 1994, na tentativa de aprimorar o controle financeiro do país, Fernando Henrique Cardoso, então Ministro da Fazenda, implementou o Plano Real. O Plano ficou conhecido como primeiro plano bem-sucedido para a contenção da inflação.

Nos governos seguintes de FHC e Lula, a inflação média manteve-se controlada na casa de 12.6% e 6.3%, respectivamente.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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