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Indicadores Sem Análises São Informações Vazias

By 30 de agosto de 2018 No Comments

O paciente arde em febre durante a longa madrugada. A enfermeira vem ao seu leito de hora em hora para medir sua temperatura, ministrando doses de antitérmicos conforme o resultado apontado pelo termômetro. Ela só descansa quando a temperatura fica abaixo dos 37 graus Celsius. A dosagem do remédio é controlada após a análise do indicador da temperatura de quem precisa de cuidados.

Quem dirige um carro lida com indicadores o tempo todo. No painel junto ao volante costumam ser indicadas, por exemplo, a velocidade, as rotações por minuto e a temperatura do motor, o nível de combustível no tanque e a pressão do óleo. Não basta saber que o carro está se deslocando a 75 km/h: é preciso frear para respeitar os 60 km/h apontados pelas placas como limite na via em questão. Se as RPM estão altas demais, está na hora de passar a marcha para cima, ou tirar o pé do acelerador. Se a gasolina está na reserva, é melhor abastecer o veículo. Estas são algumas decisões que o motorista toma após prestar atenção nos indicadores citados.

Logo, os indicadores são úteis, mas eles não resolvem as questões por si só. Conhecer os parâmetros é fundamental para analisá-los corretamente, tomando a decisões necessárias.

Contabilidade padronizada

A cada trimestre as empresas de capital aberto são obrigadas a publicar seus Balanços Patrimoniais – BPs, Demonstrações de Resultados de Exercícios – DREs, e Demonstrações de Fluxo de Caixa – DFCs. A partir destes dados, os especialistas do mercado financeiro extraem os indicadores fundamentalistas das empresas.

Em termos comparativos, estes indicadores revelam parte da saúde de um negócio, e a que velocidade ele está girando. A grande diferença é que estabelecer parâmetros para uma análise mais apurada envolve uma série de informações mais complexas, sobre as quais um analista não pode ser rígido demais.

Ao contrário do motorista que reage imediatamente a qualquer indicador no painel de um carro, o analista financeiro produz um relatório de investimento, procurando embasar seus argumentos para extrai r uma conclusão. Para tanto, não basta fiar-se aos parâmetros básicos dos indicadores, mas é preciso conhecer o histórico da empresa, seu campo de atuação e a qualidade de sua gestão.

O ROIC dos bancos e das holdings

Por exemplo, um dos indicadores mais considerados por investidores de longo prazo é o ROIC, ou retorno sobre o capital investido. Empresas que apresentam um ROIC superior a 10% seriam as mais indicadas para o prosseguimento das análises. Porém, se a opção de um aporte depender somente deste fator, as ações de bancos e das holdings ficarão de fora da carteira do investidor.

Ocorre que empresas do segmento financeiro não operam com EBITDA – Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização – mas apenas com resultados financeiros. Como a fórmula de cálculo do ROIC envolve o NOPAT, que simplificadamente é o lucro operacional da empresa descontado dos impostos, não há como apontar este indicador corretamente. A despeito disso, são empresas com enorme potencial de lucro e recorrente distribuição de dividendos. Portanto, ignorá-las pela ausência do ROIC é um erro.

Alavancagem elevada

Outro indicador que investidores mais defensivos levam em conta é a relação entre a Dívida Bruta e o Patrimônio Líquido. Neste caso, não é recomendável que o resultado seja maior do que 1 – em outras palavras, a empresa não pode dever mais do que ela vale. No entanto, levar este parâmetro ao pé da letra para empresas geradoras e transmissoras de energia pode não ser muito produtivo.

As empresas que operam no setor de energia elétrica devem investir capital intensivo na composição de seus ativos que são baseados em usinas hidrelétricas, termoelétricas, de painéis solares ou de fonte eólica. As linhas de transmissão também são estruturas muito caras para implementar. Porém, estabelecidas as condições normais de operação, são empresas de retornos constantes e previsíveis no longo prazo, pouco sujeitas a perda de mercado.

A informação isolada não gera conhecimento

A Internet revolucionou o modo como as empresas são avaliadas e ajudou a multiplicar os agentes envolvidos neste processo. Sites divulgam indicadores financeiros das empresas abertamente e isso gera uma falsa noção de simplicidade na tarefa de escolher as melhores ações para investir.

Este é um fenômeno visto também na medicina. A pessoa dirige-se a um consultório para fazer um check-up anual e o doutor lhe prescreve uma série de exames a partir da coleta do sangue e da urina. Assim que os laboratórios divulgam os resultados, já com os parâmetros mínimos e máximos para vários indicadores de saúde, como nível de colesterol, creatinina, ácido úrico, glicose, triglicérides, entre outros, o sujeito tenta interpretar os dados antes de marcar a consulta de retorno com o médico.

Folheando os resultados normais, o curioso pode pensar: “Ser médico é fácil, basta pedir uns exames e ver o que está fora do intervalo recomendado – até eu posso ser médico”. Então na sétima pagina vem um resultado anormal: a elevada presença de leucócitos e hemácias na urina.

Uma consulta no Google e o elemento descobre que tem sangue na urina. Então ele se apavora: vai dormir achando que tem um câncer na bexiga, ou que seus rins pararam de funcionar. Ele já se vê fazendo hemodiálise. Um pesadelo. Logo de manhã ele tenta um encaixe na clínica.

O médico finalmente analisa os resultados e lhe tranquiliza: o paciente tem apenas uma infecção urinária, lhe prescrevendo um antibiótico para ser tomado durante uma semana, ao fim da qual os exames serão repetidos.

– Doutor, eu consultei os resultados no Google e fiquei apavorado.

– O Google faz um ótimo trabalho: ele deixa as pessoas preocupadas e elas vão aos médicos, e isso é bom – responde o profissional de saúde.

Do mesmo modo, investidores da Bolsa de Valores sem experiência em análise de ativos, e sem embasamento para tirar as próprias conclusões, não deveriam confiar apenas no que a Internet tem para oferecer, pois ela está repleta de doutores e analistas desqualificados, sendo por vezes difícil distinguir eles dos bons profissionais. Contar com o respaldo de um analista profissional com CNPI – Certificado Nacional do Profissional de Investimento – é o caminho correto para seguir. Somente um analista certificado pela Apimec – Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais – pode analisar e recomendar publicamente alguma empresa listada na Bolsa de Valores de São Paulo.

A importância de prevenir

As empresas publicam seus check-ups a cada três meses, na forma de demonstrações financeiras. Se todas as pessoas físicas fizessem o mesmo, elas quebrariam os sistemas público e privado de saúde. Mas qual seria a importância de uma empresa fazer um check-up a cada três meses?

A resposta é que os BPs, as DREs e as DFCs podem apontar sintomas de que algo não vai bem com a empresa, oferecendo suporte para os gestores tomarem as providências necessárias para recolocar o negócio no rumo certo, ou avisar ao investidor que está na hora dele deixar a embarcação. Algo semelhante acontece no caso da pessoa que descobre uma doença grave em seu estágio inicial, facilitando o seu tratamento e aumentando as chances de cura.

Mesmo quando todos os indicadores estão dentro de parâmetros recomendados, observar a conjuntura é uma premissa. Uma empresa pode estar voando nos indicadores fundamentalistas, mas atuar num setor de risco ou depender de um monopólio que pode ser quebrado sem aviso prévio, acabando com suas vantagens competitivas.

Paralelamente, os setores de Recursos Humanos das firmas não contam apenas com o exame médico de admissão para aprovar um novo empregado. Um jovem pode ser capacitado para o trabalho e gozar de plena saúde de acordo com os exames, mas se ele tiver comportamentos de risco, como dirigir embriagado e fizer uso ocasional de entorpecentes, ele pode causar prejuízos futuros para a organização, que investigará até as suas redes sociais antes de aceitá-lo no quadro de funcionários.

Ratificando

Deste modo, resta para o momento fazer duas recomendações: para cuidar da sua saúde, consulte seu médico regularmente; e para cuidar de seus investimentos, conte com o suporte da Suno Research, que abriga em seu quadro de colaboradores alguns dos melhores analistas do mercado de capitais do Brasil. Com saúde e com investimentos não se brinca. Faça a sua Assinatura Premium hoje mesmo.

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Jean Tosetto

Jean Tosetto

Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.