Howard Marks
Por: Tiago Reis

Howard Marks: Esteja atento aos ciclos do mercado (Parte II)

Ontem, encerrei a primeira parte desta série sobre os ciclos do mercado, segundo Howard Marks, comentando sobre o atingimento de pontos extremos do ciclo de crédito.

Neste sentido, no ponto extremo da subida do ciclo, surgem ocorrências de grandes empréstimos para devedores ruins. “Os piores empréstimos são feitos nos melhores momentos”.

Trata-se do momento em que o capital começa a ser destruído, pois são realizados investimentos em projetos cujo custo de capital é maior do que o retorno. A partir daí, o ciclo começa a se reverter.

O processo de “descida” do ciclo é descrito nas seguintes etapas:

  • Perdas desencorajam os responsáveis pelos empréstimos;
  • A aversão ao risco cresce e, com ela, as taxas de juros e restrições de crédito;
  • Menos capital fica disponível, de modo que, ao final do ciclo, apenas os mais qualificados podem tomar empréstimos;
  • Muitas companhias começam a precisar de capital. Devedores passam a não conseguir honrar com suas dívidas, levando a default e falências;
  • O processo foi estabelecido, gerando uma contração na economia.

De fato, chega-se agora ao outro extremo, de modo que, novamente, o ciclo se reverte. Cabe notar, portanto, que os ciclos se “autocorrigem”, com base nos processos descritos para a subida e para a descida, sem depender de fatores externos.

Todos estes aspectos que comentei, desde o começo da Parte I desta série, foram abordados por Marks em seu memorando, escrito em 2001. Ainda assim, os processos citados por Marks descrevem perfeitamente a crise financeira vivenciada no período de 2007 a 2008, ocorrida em tempos posteriores à escrita do memorando.

A ciclicidade é inevitável

Ciclos sempre acontecerão. Marks afirma que o único caso em que teriam a chance de não acontecer seria diante de um mercado completamente eficiente, no qual todas as pessoas tomam decisões calculadas e sem envolvimento de emoções.

No entanto, isto não acontece. Portanto, os investidores sempre estarão propensos a supervalorizar companhias quando estão em tempos otimistas, e a desvalorizá-las em tempos difíceis.

Além disso, de tempos em tempos, quando uma subida ou descida do ciclo dura um tempo considerável, muitos se arriscam a dizer que a ciclicidade deixou de existir. Trata-se de uma suposição que se baseia na famosa (e capciosa) premissa: “desta vez é diferente”. Segundo Sir John Templeton, estas são as quatro palavras mais perigosas do mundo dos investimentos.

Neste sentido, buscando comprovar esta tese, são citadas mudanças geopolíticas, institucionais, tecnológicas ou, até mesmo, comportamentais. Assim, muitos investidores se deixam levar por este pensamento.

Mas, no final das contas, as regras anteriores ainda são válidas e os ciclos recomeçam.

Ignorar a existência dos ciclos, extrapolando tendências do presente para o futuro, é um dos comportamentos mais perigosos que um investidor pode tomar. Muitos investidores agem como se as companhias, individualmente, fossem manter para sempre a mesma direção de movimento.

Investidores novatos eventualmente aceitarão que algo que nunca aconteceu antes – ciclos deixarem de existir – possa acontecer. No entanto, ao experienciar pela segunda ou terceira vez o início e o fim de novos ciclos, provavelmente perceberão que eles sempre existirão. Cabe ao investidor fazer desta percepção uma vantagem.

Howard Marks adverte, de maneira extremamente sábia: “na próxima vez em que você for abordado com uma oferta que diz que os ciclos não acontecerão mais, lembre-se que, invariavelmente, esta será uma aposta perdedora”.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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