Nosso intuito durante esse período é fornecer informações valiosas ao indivíduo que pretende aprender e se aprimorar na estratégia de investimento que traz retornos excelentes no longo prazo.

O perfil médio do brasileiro confirma uma grande aversão a risco, por isso, vou demonstrar alguns aspectos aos quais o investidor deve se atentar ao montar um portfólio focado em dividendos, que propiciem uma margem de segurança e minimizem os riscos.

Um erro comum ao analisar a qualidade de uma ação, é olhar diretamente para o dividend yield, que é a porcentagem paga na forma de dividendos.

Valores altos podem parecer atrativos no início, mas não dizem nada sem antes realizar uma análise criteriosa e minuciosa.

Afinal, é seguro investir em dividendos?

Definitivamente sim, mas destrincharei quatro conceitos que devem ser compreendidos em sua plenitude ao analisar uma companhia que aparenta ser uma boa pagadora de dividendos. São eles:

  1. Os lucros são suficientes para cobrir o dividendos?
  2. Os lucros são estáveis o suficiente para cobrir os dividendos em meio a variações de curto prazo? Caso não, a empresa tem acesso a outros recursos para financiar o dividendo?
  3. Os lucros são duráveis o suficiente para cobrir os dividendos num futuro previsível?
  4. A diretoria, além de ter a capacidade, tem o desejo de manter o pagamento dos dividendos quando a situação aperta?

Se um investidor não conseguir responder de maneira satisfatória essas quatro perguntas, evite a ação. Mesmo se os valores parecerem, a princípio, atrativos.

  1. Os lucros são suficientes para cobrir os dividendos?

Dividendos são atraentes. Implícito no pagamento do dividendo vem a sensação de que a companhia continuará pagando pelo menos a mesma quantidade no futuro.

Porém, os dividendos devem vir de algum lugar, e esse lugar são os lucros.

Lucro ou fluxo de caixa? Dividendos são pagos em dinheiro, porém existem empresas que apesar de serem lucrativas, tem operações com necessidade de capital intensivo, que precisam de investimento em capital de giro para crescer, e usam o caixa produzido.

Sim, o fluxo de caixa é importante. Uma empresa com resultados positivos, no entanto, mesmo que reinvista a maioria do caixa no negócio, enquanto for crescendo o lucro, estará aumentando a sua capacidade de distribuir riqueza aos acionistas.

Para o tipos complicados de negócio, os quais tendo a evitar, o fluxo de caixa é essencial para a análise. Porém na vasta maioria dos casos, o lucro é um substituto plausível para o fluxo de caixa.

O lucro por ação (LPA) do últimos anos diz o que aconteceu no passado. Deve-se olhar para o lucro futuro quando o intuito é analisar a segurança do pagamento de dividendos.

Existem algumas opções para averiguar o lucro futuro:

  • Direcionamento da diretoria da empresa;
  • Consenso de investidores;
  • Lucros atuais;
  • Previsão pessoal;

Como qualquer previsão está sujeita a falhas, quanto mais informações e mais esforço for dedicado, melhor será o resultado.

Com o lucro futuro estimado, é possível calcular uma margem de segurança para variações no lucro que não resultem na queda dos dividendos.

Olhamos para a razão do payout, que é a porcentagem dos lucros que a empresa distribuiu como dividendo. Exemplo:

  • A empresa teve 1 real de lucro por ação e pagou 62 centavos como dividendo, por papel. Seu payout foi de 62%. A margem então é calculada por: 100% – payout ratio = margem de segurança.
  • No exemplo, 100% – 62% = 38%. Conclui-se que o lucro por ação pode cair até 38% que a companhia ainda poderá entregar o mesmo dividendo.
  1. Lucros estáveis o suficiente para cobrir os dividendos em meio a variações de curto prazo?

Nenhuma empresa, não importando quão conservadora ou defensiva, consegue gerar lucros perfeitamente estáveis.

O mundo real é dinâmico, e os principais causadores das variações que podem impactar nos dividendos são:

Flutuações na receita: mesmo que tenha uma barreira competitiva, todos os tipos de negócio tem flutuações na receita.

Alguns sofrem mais do que outros.

Numa recessão, uma fábrica de aço tende a sofrer oscilações maiores do que um fabricante de alimentos.

Em épocas otimistas o oposto acontece, onde indústrias cíclicas tiram proveito de crescimento maior.

Alavancagem Operacional: a estrutura de custeio de um negócio possui um mix de custos fixos e variáveis.

Os variáveis são ligados ao nível de receita. Para um fabricante de alimentos, se a receita cai, os custos do produto vendido cairão na mesma proporção.

Em contraste, os custos fixos para a fábrica de aço, que emprega 1000 funcionários para a planta funcionar, independente se a receita for de 1 bilhão ou 200 milhões, causam um impacto muito maior nas margens caso a receita varie.

Alavancagem Financeira: Negócios com bastante dívida são obrigados a pagar juros periodicamente.

Os financiadores esperam ser pagos sem atrasos, indiferentes ao fato dos lucros operacionais serem altos ou baixos.

Como os juros não variam junto com a receita, eles se comportam como outro custo fixo.

Portanto, alavancagens financeiras amplificam o efeito da mudança da receita nos lucros.

Para entender os conceitos na plenitude, recomendo a leitura do Guia Suno de Contabilidade. Nele, são abordados de maneira didática e intuitiva os principais tópicos que um investidor deve dominar.

Amanhã abordarei os dois últimos conceitos e farei comentários relevantes àquele que deseja obter maestria na estratégia de dividendos.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.