Escalabilidade

No âmbito empresarial, o conceito de escalabilidade é muito importante para uma companhia no que diz respeito ao seu desempenho operacional.

Mesmo assim, muitos investidores, ao realizarem suas análises fundamentalistas a respeito de determinado ativo financeiro, muitas vezes deixam de lado o fato de se analisar a capacidade de escalabilidade que um determinado produto e/ou serviço de uma companhia pode apresentar.

O conceito de escalabilidade pode ser definido como a capacidade de um negócio em conseguir suprir uma alta quantidade de demanda em relação àquilo ao que se propõe a fazer – produto ou serviço – sem precisar realizar aumentos significativos de investimentos em sua operação.

Ainda, um outro conceito desse tema se relaciona ao fato de que um negócio escalável consegue aumentar bastante sua produção mantendo a mesma qualidade do produto.

Assim sendo, uma companhia que apresenta uma boa capacidade de se tornar escalável consegue manter ou melhorar as margens de lucro enquanto aumenta o volume de vendas e, por consequência, as suas receitas.

Aescalabilidade, seja em um contexto financeiro ou dentro de um contexto de estratégia de negócios, descreve a capacidade de uma empresa em conseguir crescer sem ser prejudicada pela sua estrutura física ou pelos seus recursos disponíveis.

Normalmente, empresas de tecnologia apresentam uma forte característica de escalabilidade, ao contrário do segmento de varejo, por exemplo, que para aumentar as suas receitas, muitas vezes necessita aumentar a quantidade de seus estoques, tamanho de galpões, processos de logística e quantidade de colaboradores.

  1. Considerações sobre escalabilidade
  2. Escalabilidade e tecnologia
  3. Conclusão sobre escalabilidade

Considerações sobre a escalabilidade

Uma questão essencial para que o processo de expansão da companhia seja realizado com sucesso é que o faturamento cresça em uma proporção maior que os custos.

Uma vez que isto seja possível, é plausível afirmar que expandir as operações é benéfico para a companhia.

Pois, como o faturamento estará se expandindo acima dos custos é de esperar também que as margens de lucro da companhia se expandam.

As margens de lucro costumam, inclusive, estar entre os melhores indicadores de rentabilidade de um negócio.

Imagine, por exemplo, que uma empresa tenha um faturamento de R$ 100 mil e custos totais de R$ 50 mil.

Esta empresa, portanto, apresenta um lucro líquido de R$ 50 mil.

A margem líquida desta empresa, que é dada por lucro líquida divido pela receita líquida, será, portanto, de 50%.

Pois: 50 mil / 100 mil = 50%

Agora suponha que esta companhia observa uma oportunidade de escalar as suas operações. Com isso, ele pode dobrar a sua receita enquanto que os custos só aumentarão em 50%.

Sendo assim, a receita líquida será agora de R$ 200 mil enquanto que os custos totais serão R$ 75 mil. Com isso, o lucro desta empresa passa a ser de R$ 125 mil.

Logo, a sua margem líquida será:

125 mil / 200 mil = 62,5%

Ou seja, além de expandir as suas operações, a empresa também conquistou um incremento de suas margens.

Custo marginal

O fato de muitas vezes a margem também crescer enquanto a empresa expande se dá por conta do custo marginal decrescente.

O custo marginal representa o custo de se oferecer um produto ou serviço a mais do que se vem oferecendo atualmente.

Imagine por exemplo um banco que deseja começar as suas operações a partir do zero.

O custo marginal para conquistar os primeiros clientes será muito elevado.

Pois o banco ainda precisa montar toda a sua estrutura, contratar funcionários, serviços de backoffice, solicitar licença perante os órgãos reguladores, entre outros custos que envolvem o surgimento de um novo negócio.

Uma vez que este banco já possua toda esta estrutura montada, conquistar clientes adicionais será feito através de um custo muito mais reduzido. Para isso pode ser necessário, por exemplo, apenas um pequeno investimento em marketing.

E assim muitas empresas conseguem crescer enquanto entregam maiores margens e rentabilidade aos seus acionistas.

Caso real de ganho de escala e margens simultaneamente

Um caso real em que uma empresa conseguiu crescer a sua receita líquida e ainda aumentar suas margens se deu com a Grendene.

A Grendene é uma empresa listada em bolsa e famosa por produzir os calçados Melissa e Rider.

A companhia, inclusive, é uma das mais rentáveis das listadas em bolsa de valores.

Observe na imagem abaixo o histórico de margem líquida e receita líquida da Grendene.

escalabilidade da GrendeneA margem líquida da Grendene, em 2006, era ao redor de 5%.

Enquanto que a sua receita líquida pouco superava a marca de R$ 1 bilhão.

Já em 2017, através de boas ações da gestão da companhia, a Grendene chegou a apresentar uma margem líquida de 30%.

Enquanto que a sua receita superou a marca de R$ 2 bilhões.

Ou seja, a companhia conseguiu dobrar o seu faturamento ao mesmo tempo em que aumentou consideravelmente a sua margem líquida.

Isto fez com que a empresa se tornasse uma das que mais criou valor ao seu acionista das companhias listadas no Brasil.

Isto só foi possível, obviamente, por conta dos benefícios que a escalabilidade oferece aos negócios.

Benefícios da escalabilidade

Existem diversos benefícios que ocorrem para os negócios escaláveis, entre eles é possível citar:

  • Maior mercado consumidor
  • Economia de custos
  • Pressão sobre os fornecedores

Maior mercado consumidor

Este é um dos benefícios mais obvies que ocorrem ao se obter escala para uma empresa.

Um negócio escalável pressupõe um amplo mercado consumidor.

E um amplo mercado consumidor é sinônimo de maior receita.

Negócios que não são escalonáveis são considerados negócios de nicho, e estes possuem uma clara limitação de demanda.

Um exemplo de mercado de nicho é o mercado de cursos preparatórios para concursos.

Estes negócios possuem uma clara limitação de demanda: São voltados apenas para pessoas que desejam fazer os concursos específicos.

Embora estes negócios possam ser escalonáveis até certo ponto, existe um limite a partir do qual não é mais possível se expandir.

Estes negócios se diferenciam claramente de empresas escalonáveis, como por exemplo, a Amazon.

A Amazon é uma companhia que pode obter como mercado consumidor praticamente toda a população dos Estados Unidos da América.

Não há um foco de perfil a ser atingido, por isto, a Amazon é um dos negócios de maior escala global.

Economia de custos

Este é mais um benefício intuitivo que ocorre com a escalabilidade.

Ele é observado não só nas grandes empresas, mas também nos pequenos negócios.

Imagine, por exemplo, que um restaurante deseja comprar refrigerantes para compor o seu estoque.

É muito comum que seja oferecido um preço de acordo com o volume a ser comprado.

Por exemplo, se o consumidor deseja obter 100 mil latas de refrigerante o custo pode ser de R$ 2 por lata.

Já se ele for obter 200 mil latas o fornecedor pode baixar o custo para R$ 1,50 por lata.

Esta economia na compra de produtos gera, ao fim, um maior retorno para o restaurante, através do aumento de sua margem líquida.

O mesmo se dá para grandes empresas quando desejam comprar insumos.

Imagine, por exemplo, o caso da Ambev.

Como a Ambev é uma empresa gigante e irá comprar matéria-prima em quantidades enormes, é normal que ela consiga adquiri-las por um preço muito baixo.

Até por isso a Ambev também é uma das campeãs da bolsa no quesito margem de lucro e rentabilidade.

Pressão sobre os fornecedores

A pressão sobre os fornecedores também ocasiona, ao fim, economia de custos.

Empresas com grande escala muitas vezes respondem por boa parte do faturamento de outras companhias.

Voltando ao exemplo da Ambev. Imagine que determinada empresa fornece Malte para a Ambev.

E a vendas para a Ambev correspondem a 90% do faturamento desta companhia.

A empresa é, portanto, diretamente dependente desta receita.

Logo, se a Ambev pedir um preço mais baixo para continuar comprando malte desta empresa é muitíssimo esperado que esta empresa aceite a proposta.

Isto irá ocasionar menores retornos para o produtor do malte, e maiores retornos para a Ambev, que obtém o benefício pelo seu modelo de negócios com grande escala.

Escalabilidade e tecnologia

Um fator bastante interessante percebido nos últimos anos em relação a capacidade de se escalar um negócio remete a questão da tecnologia no mundo empresarial.

Como já mencionado, as empresas de tecnologia possuem uma incrível capacidade de escalar rapidamente, tornando as empresas de alta tecnologia como interessantes cases desse processo de crescimento, isso por que empresas com baixa carga operacional e pouca ou nenhuma necessidade de armazenagem e inventário (estoques) não precisam de muitos recursos ou infraestrutura para crescer rapidamente.

Contudo, hoje em dia, mesmo as empresas que não estão diretamente relacionadas ao setor de tecnologia apresentam uma maior capacidade de escala.

A aquisição de clientes, por exemplo, através do uso de ferramentas como publicidade e marketing digital, tornou-se muito mais fácil.

Mesmo as instituições bancárias, a título de ilustração, podem implementar esses tipos de estratégias de publicidade digital para aumentar as inscrições para serviços bancários on-line, aumentando sua base de clientes e potencial de receita.

Isso pode ser visto de maneira bem clara nas hoje bastante conhecidas Fintechs.

Diversos outros setores também estão aderindo ao recurso tecnológico para conseguir escalar as suas atividades.

Um ponto interessante sobre essa excelente característica empresarial remete ao fato de que, normalmente, todos os negócios escaláveis apresentam um grupo bem marcante de líderes, incluindo executivos de alto nível, investidores e conselheiros, que fornecem a elas estratégia e direção no sentido do crescimento sustentável.

Ainda, as empresas escaláveis também possuem uma marca bastante consistente e consolidada em suas divisões e locais de atuação, sendo, na maioria das vezes, as mais lembradas pelos clientes no que diz respeito ao grau de aceitação nos seus mercados de atuação.

Escalabilidade bancária

Um ótimo caso real para entender a mudança de paradigma que o tema da escala sofreu com a revolução tecnológica é o setor bancário.

Os bancos sempre deram uma atenção grande à questão de escala.

Afinal, estas empresas possuem estruturas de custos bastante consideráveis, que por isso precisam ser diluídas face a um grande faturamento.

No passado um sinônimo de escala bancária era número de agências físicas.

Os grandes bancos, inclusive, entraram em uma disputa para conseguir abrir mais agências do que os seus concorrentes.

Atualmente, no entanto, o que se vê é o contrário. Os grandes bancos estão cada vez mais se desfazendo de suas agências, mantendo apenas os locais estratégicos.

Isto quer dizer que os bancos abriram mão da escala em seus negócios?

Não. A escala continua sendo igualmente importante para os bancos, assim como era no passado.

O que mudou, no entanto, foi a maneira com que estas empresas buscam atingir a escala.

Com a inovação disruptiva do avanço da tecnologia os grandes bancos encontraram no meio online uma forma muito mais barata de se obter escala.

As agências envolvem custos muito altos, como o aluguel do espaço, funcionários e segurança.

No meio online os bancos conseguem penetrar nesta base de clientes sem ter que incorrer nestes custos.

Isto é ainda mais facilitado pela assertividade das propagandas que hoje a tecnologia proporciona. Sendo possível os bancos atingirem exatamente o seu perfil do consumidor.

Banco Inter: Um case de sucesso de escala através da tecnologia

Além dos grandes bancos tradicionais que realizaram uma mudança de rumo para se adaptar à tecnologia muitas novas empresas viram neste mercado uma oportunidade.

Assim, houve recentemente o surgimento de novas companhias focadas em obter uma escala em serviços financeiros utilizando a tecnologia ao seu favor, como por exemplo: Nubank, Agibank e banco Inter.

Entre estas cabe destacar o banco Inter. Através do serviço de contas digitais sem tarifas e um modelo 100% online o banco conseguiu crescer com baixo custo.

Em 2018 o banco chegou à marca de abrir 3.000 contas diárias com um baixíssimo custo de aquisição por cliente. Que é, por definição, o quanto a empresa investe para conseguir com que um cliente abra uma conta.

Este custo baixo só é possível pelo modelo de negócios considerado “enxuto” da empresa.

Hoje, mesmo sem nenhuma agência física, o banco Inter tem clientes na grande maioria dos munícipios brasileiros, todos conquistados através da propagando online e do marketing “boca a boca”.

No vídeo abaixo, comenta-se um pouco sobre a ocasião do IPO do banco Inter. Importante ressaltar que o IPO diz respeito ao momento em que a companhia é listada pela primeira vez na bolsa de valores.

Conclusão sobre escalabilidade

conclusão sobre escalabilidadeA capacidade de escalabilidade de um negócio deveria ser um dos mais criteriosos itens de avaliação no que diz respeito à decisão sobre investir ou não em uma companhia, haja visto que, no mercado financeiro do século XXI, essa capacidade de crescimento de maneira sustentável é cada vez mais demandada pelas companhias nos mais variados tipos de segmentos empresariais.

 

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.