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Educar uma criança é um investimento e um empreendimento

By 11 de outubro de 2017 No Comments
Crianças

Fora do campo da fé religiosa, não há garantia científica alguma sobre a possibilidade da imortalidade do ser humano. Se há meios de preservar ao menos parte de uma pessoa por mais tempo do que o seu ciclo de vida natural permite, seria através da doação de órgãos para terceiros ou através dos filhos, que levam o DNA combinado dos pais.

Se entendermos que o DNA é uma molécula que carrega informações genéticas, podemos ampliar o conceito da perpetuação do indivíduo através da criação de filhos adotivos. Se estes não possuem as informações genéticas do pai e da mãe, herdam informações através de valores culturais e crenças transmitidas pelos mesmos.

Por isso, educar uma criança, lhe imputando condutas éticas e uma gama de conhecimentos, é a maneira mais segura que existe para prorrogar a nossa passagem por este planeta. Nossos filhos, no futuro, vão refletir parte do que ensinamos para eles. Eis um belo investimento cujo retorno é difícil mensurar. A criação de um filho é um empreendimento constante.

Tal pai, tal filho

Grande parte da educação que as crianças recebem, de modo intencional ou não, se dá através de exemplos. Por isso, filhos de pais perdulários tendem a ser perdulários. Filhos de pais negligentes provavelmente serão negligentes. O mesmo pode ocorrer no caso de pais previdentes, que pensam no bem-estar futuro.

Por vezes, o antagonismo também se apresenta. É o caso de filhos que não querem repetir a trajetória dos pais. Este é o motivo de muitas empresas familiares quebrarem na segunda geração: os pais se dedicaram mais de 15 horas por dia para o negócio, visando oferecer uma vida melhor para os herdeiros que, no entanto, preferem curtir os prazeres da vida em vez de assumir os compromissos de outrora.

Por centenas de anos o ofício dos filhos era predominantemente determinado pelo trabalho dos pais. O filho de um sapateiro teria mais chances de sucesso se continuasse com a sapataria do pai. Agricultores procriavam com mais intensidade para ter mais ajudantes na lavoura, e assim por diante.

A mobilidade social e de profissões é um fenômeno relativamente recente, ligado ao processo de urbanização da economia. Por isso um arquiteto pode ser filho de um operário que, por sua vez, é filho de um carpinteiro. A filha da dona de casa pode ser professora e a neta uma empresária.

Alienação parental

Com as novas possibilidades veio também o aumento da complexidade na criação de filhos. Para adicionar mais variáveis a este desafio, surge o Estado com suas regulações. Por exemplo, no Brasil um jovem de 16 anos pode votar em eleições presidenciais, mas não pode responder por crimes hediondos. Nas redes sociais se discute o que as crianças podem, ou não, ver em galerias de arte ou museus.

Pais estão tratando seus filhos como adultos em miniatura, lhe matriculando em cursos extraescolares e preenchendo suas agendas com diversas atividades recreativas e esportivas. Parece mais cômodo terceirizar a educação das crianças ao invés de investir um tempo diário em conjunto, nem que seja na mesa da sala de jantar.

Vamos falar de dinheiro?

Dentre tantos assuntos abordados na criação de filhos, um tema permanece aparentemente esquecido: em que momento uma criança deve ser iniciada nas questões da educação financeira? Esta é uma pergunta difícil de responder, se o argumento de que nem os pais possuem educação financeira não puder ser usado.

De acordo com reportagem publicada pelo Jornal do Comércio em outubro de 2015, apenas 9% dos brasileiros economicamente ativos possuem o hábito de poupar parte de sua renda mensalmente.

Um número ainda menor destina este excedente para investimentos sofisticados: conforme o portal Infomoney, menos de 0,3% dos brasileiros tem cadastro ativo na Bolsa de São Paulo, enquanto que nos Estados Unidos 65% das pessoas investem em ações.

Portanto, o brasileiro médio, antes de educar uma criança em questões financeiras, deve se educar primeiro. Este é um processo lento que aos poucos está alcançando cada vez mais indivíduos em faixas etárias diversas.

Numa rápida pesquisa nas redes sociais, em grupos que tratam do tema de investimentos, é comum vermos testemunhos de pessoas com seus 30 a 40 anos sobre certo lamento de terem descoberto a necessidade de obter a previdência através do mercado de capitais tardiamente: “Gostaria que alguém tivesse me alertado sobre isso antes, pois meus pais nunca tocaram no assunto” – uma frase fictícia, porém, verossímil.

O menino prodígio da Bolsa

Gerson Mattiuzzo Junior foi além de alertar seu filho, Luis Felipe, sobre os benefícios de investir em ações através da Bolsa de São Paulo. Ele abriu uma conta em corretora para o garoto, quando ele tinha apenas 8 anos de idade, fazendo dele o mais jovem investidor da Bovespa – atual B3 – em 2013. Gerson começou fazendo aportes de R$ 1.000,00 para seu herdeiro.

Adotando desde cedo uma postura de investidor de longo prazo, com técnicas de “Value Investing”, Gerson acredita que Luis Felipe, quando tiver a idade do pai, terá mais renda passiva do que a renda que este obtém com seu trabalho. O menino, já aos 10 anos, demonstrava a maturidade de um investidor experiente, em entrevistas para a revista Exame e o jornal Folha de S. Paulo.

Despesa ou investimento?

Este caso demonstra a clara preocupação de um pai com a educação formal e financeira de seu filho. As reportagens sobre Luis Felipe não abordam onde ele estuda, mas certamente é numa escola particular.

Pelas mensalidades das escolas particulares brasileiras podemos concluir o quanto é dispendioso criar um filho atualmente. Adotando o valor médio de R$ 1.000,00 por mês, considerando os gastos com matrículas e material escolar – mas sem considerar a inflação – manter uma criança na escola entre 6 e 17 anos custa R$ 144.000,00 fora despesas com alimentação, saúde, vestuário e moradia.

Não por acaso, o número de filhos por família, no Brasil, vem caindo ano após ano, na taxa média de 1% ao ano, conforme dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Esta é uma das razões pelas quais o sistema público de previdência no Brasil é insolvente, pois cada vez menos pessoas ingressam no mercado de trabalho para sustentar a aposentadoria daqueles que já não podem trabalhar.

Bolsa de valores versus bolsa de estudos

Se, a exemplo de Mattiuzzo, um pai de família investir R$ 1.000,00 por mês em nome de um filho, adotando uma postura conservadora de rendimentos na taxa média de 0,9% ao mês, no mesmo período dos 6 aos 17 anos, ao invés de apenas despender R$ 144.000,00 a criança chegará à fase adulta com um patrimônio acumulado de R$ 292.611,70 com uma renda passiva mensal média de R$ 2.048,28 – uma bela ajuda de custo para as despesas da faculdade.

Aqui não estamos considerando o efeito da inflação, mas estamos reaplicando o retorno mensal do investimento. É possível conseguir até mais de 0,9% de rendimento médio mensal na Bolsa, através de ações de empresas consolidadas e cotas de fundos imobiliários competentes, sem contar o fato de que as valorizações das cotas de fundos imobiliários e ações das empresas podem ser exponencialmente maiores do que a soma do valor aportado e dos juros compostos.

A Klabin, empresa que atua no setor de papel e celulose, por exemplo, teve valorização média de 18,62% ao ano entre 1996 e 2016, somando-se os dividendos. Considerando um aporte inicial de R$ 144.000,00 em suas ações (KLBN4), em 12 anos o investidor teria um patrimônio acumulado de R$ 1.112.568,00 que, convertido em renda passiva mensal na taxa de 0,9% equivaleria a um salário de R$ 10.013,11 – mais de oito vezes a renda média per capita do Brasil em 2016.

Um legado baseado em princípios

Porém, mais importante do que realizar os aportes mensais em nome de uma criança, seria fazer todas as operações em conjunto com ela, decidindo sobre qual ativo seria adquirido e reforçando a importância dos juros compostos neste investimento de longo prazo. No exemplo supracitado, o valor dos juros ultrapassou o valor total aportado no montante final.

Em linha com tal pensamento, podemos citar o exemplo de Warren Buffett, simplesmente o maior investidor da história do capitalismo norte-americano. Ele prometeu doar 99% de sua riqueza para instituições de caridade, antes de morrer. Para seus filhos, ele pretende deixar “o suficiente para que eles sintam que podem fazer tudo, mas não o bastante para eles acharem que não precisam fazer nada”.

Mais importante do que deixar bens patrimoniais para suas crianças, alguns dos maiores investidores preferem transmitir para seus filhos o conhecimento suficiente para que estes não fiquem desamparados. Afinal de contas, dessa vida, nada se leva e o que se deixa é um legado.

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Jean Tosetto

Jean Tosetto

Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.