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Ebitda: potencial de geração de caixa que depende de prazos

By 27 de setembro de 2017 No Comments

Diversos são os fatores que os investidores mais experientes se atentam ao avaliar os resultados de uma companhia, e um deles, sem dúvidas, é desempenho e a evolução do Ebitda da referida companhia naquele período.

Contudo, mesmo sendo uma importante ferramenta de avaliação do desempenho das empresas, este indicador ainda apresenta muitas dúvidas e incompreensões por parte dos acionistas, principalmente aqueles que estão iniciando no mercado.

O que é Ebitda?

O conceito do Ebitda, em si, é bastante simples, isto por que ele é interpretado como a sigla em inglês para Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization, que traduzido para o português seria: “Lucros Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização” ou (Lajida).

Dessa forma, esse indicador exclui custos que não estão ligados diretamente à essência do business em questão.

Assim como lucros ou receitas, o Ebitda é usado na análise da saúde financeira da empresa, e serve como um bom comparativo entre empresas do mesmo setor, visto que ele traduz de modo bem direto os resultados que as companhias geram em suas atividades de atuação.

Geralmente, este índice é utilizado para avaliar o desempenho das organizações, pois ele, ao eliminar os efeitos dos financiamentos e decisões contábeis, é capaz de medir a produtividade e a eficiência da empresa, um ponto que é essencial para o investidor que pretende participar do negócio.

Cabe destacar também que para se calcular o Ebitda, basta somar ao resultado líquido da empresa os juros pagos, impostos, depreciações e amortizações do período, dados estes todos disponíveis nas Demonstrações de Resultados do Exercício (DRE) das empresas.

Ebitda = Resultado Líquido + Juros + Impostos + Depreciação + Amortização

Segue um exemplo para o cálculo do Ebitda de acordo com os resultados do Magazine Luiza (MGLU3) no segundo trimestre de 2017.

EBITDA MGLU3

Como pode-se perceber acima, ao se somar ao lucro líquido da companhia no período (R$ 72,4 milhões) as despesas referentes ao imposto de renda e demais contribuições sociais (R$ 19,3 milhões), além das despesas financeiras referentes às dívidas da companhia (R$ 109,2 milhões) e também a depreciação e amortização dos equipamentos e softwares da empresa (R$ 34,9 milhões), o investidor poderá, assim, constatar que o resultado operacional do Magazine Luiza no período, ou seja, o seu Ebitda, foi de R$ 235,8 milhões.

É importante ressaltar também que muitos investidores consideram o Ebitda como a representação da geração de caixa operacional da companhia, ou seja, o quanto a empresa gera de recursos apenas em suas atividades operacionais, sem levar em consideração efeitos financeiros e de impostos, além de amortização e depreciação.

De certo modo, o Ebitda pode ser sim interpretado como uma geração de caixa operacional da companhia, visto que ele demonstra a dimensão dos resultados da empresa naquilo que ela se propõe a fazer, e reflete bem a eficiência da equipe de gestão naquele empreendimento.

Costuma-se dizer, com isso, que o Ebitda é uma demonstração da performance do time de executivos daquele empreendimento, isto por que esse indicador remete diretamente à performance da empresa, enquanto que os índices subtraídos do Ebitda (juros, impostos, depreciação e amortização) dizem respeito a decisões tomadas pelos “donos” do negócio (acionistas, conselheiros e a alta diretoria da companhia).

Entretanto, é preciso que se entenda que o Ebitda é uma geração de caixa potencial, isto por que, na verdade, o que importa no final das contas é quanto dessa geração de lucro foi, de fato, convertida em dinheiro no caixa da empresa.

Importância dos ciclos da caixa e seus prazos médios

No jogo empresarial, tanto de multinacionais como de uma pequena padaria no interior do país, o segredo da eficiência se faz na capacidade da gestão daquele negócio em gerenciar os seus recursos, ou seja, na sua competência em administrar habilmente os seus prazos de recebimento e pagamento de suas mercadorias ou serviços prestados.

De uma maneira bem resumida, uma companhia deve sempre procurar vender o seu estoque o mais rapidamente possível, ao passo que deve maximizar os seus esforços para receber o quanto antes de seus clientes aquilo que lhe é de direito, tudo isso ao mesmo tempo em que deve procurar aumentar ao máximo os seus prazos de pagamentos a seus fornecedores.

As empresas que possuem essa habilidade conseguem todo o seu capital de giro necessário ao financiamento de seus ciclos operacionais praticamente “de graça”.

Em contrapartida, as empresas que se descuidam desses fatores relacionados aos prazos de pagamentos e recebimentos certamente encontrarão dificuldades financeiras em algum momento de sua jornada.

Dentro dessa dinâmica, as três principais vertentes que tangem a forma como as empresas lidam com seus caixas são:

  • Prazos Médios de Recebimentos de Vendas (PMRV)
  • Prazos Médios de Pagamentos de suas Compras (PMPC)
  • Prazos Médios de Renovação de seus Estoques (PMRE)

É importante que o investidor compreenda a essência desses prazos, de modo que possa, assim, compreender melhor a dinâmica do Ebitda e os ciclos de caixa de uma empresa.

Prazos Médios de Recebimentos de Vendas (PMRV)

Este é definido como o tempo médio em que efetivamente as contas a receber da empresa foram, de fato, convertidas em dinheiro no seu caixa.

É comum que investidores confundam o PMRV com o prazo habitualmente concedido aos clientes para as vendas a prazo.

Isto é uma inverdade, pois este prazo de pagamento comumente cedido pelas companhias a é uma decisão gerencial que pode servir até como um diferencial para se realizar uma venda.

Já o PMRV diz respeito a condições que efetivamente fogem ao controle da gestão da companhia e dependem exclusivamente de fatores externos à empresa.

Dessa forma, o PMRV indica o prazo médio, em dias, que uma empresa leva para transformar em dinheiro as suas “contas a receber”.

Conclui-se, portanto, que quanto menor for este prazo, melhor será para situação financeira daquele empreendimento.

Prazo Médio de Pagamentos de Compras (PMPC)

Este pode ser definido como o prazo médio, em dias, que a empresa se utiliza para pagar as suas compras de estoque

Assim sendo, quanto maior for este prazo, melhor será a situação financeira de caixa da referida empresa.

Ao se combinar os dois prazos já citados, consegue-se saber a política financeira que é adotada pela companhia em questão.

Caso o PMRV seja maior que o PMPC, isso significa que a empresa financia as suas vendas aos seus clientes em prazo superior ao que compra as suas mercadorias de seus fornecedores.

Por consequência, necessitará assim de um maior volume de capital de giro para adquirir os seus estoques (no caso da empresa não ser uma prestadora de serviços) e pagar as outras despesas inerentes ao seu ciclo operacional.

Neste caso, administração deste empreendimento deve prestar muita atenção na sua margem de lucro, que deve ser suficiente para cobrir o custo financeiro do capital de giro requerido para o financiamento aos clientes, e na eficiência de seu departamento de cobrança, que deve ser bastante ativo, visto que eventuais inadimplências poderão ocasionar importantes desequilíbrios no fluxo de caixa em questão.

Não fica difícil perceber que esta não é a melhor política comercial e financeira a ser seguida, porém, é preciso que se entenda que condições de mercado podem exigir tal comportamento em determinados momentos.

Prazo Médio de Renovação de Estoques (PMRE)

Comumente chamado de giro dos estoques, este é um prazo que deve ser comparado sempre às demais empresas integrantes do mesmo setor de atuação.

Empresas que atuam no grande varejo, como Magazine Luiza, por exemplo, diariamente se atentam aos relatórios ocorridos no dia anterior em sua rede de lojas, para que assim possam acompanhar atentamente o giro de seus estoques, isto por que mercadoria que fica parada nas suas prateleiras é considerado dinheiro que deixa de entrar, o que em nada agrada a sua gestão.

No caso de uma indústria, este prazo leva em consideração o tempo médio de produção e estocagem de seu produto.

Assim sendo, o PMRE indica o prazo médio, em dias, que uma empresa leva para vender as suas mercadorias estocadas.

Por isso, quanto menor for este prazo, melhor será a situação financeira da empresa em questão.

Ciclo Operacional

A soma do PMRE com o PMRV representa a duração do Ciclo Operacional, ou seja, o tempo decorrido entre a compra de uma mercadoria e o recebimento, ou seja, e a geração de caixa proveniente da venda dessa mercadoria.

PMRE + PMRV = Duração do Ciclo Operacional

Assim sendo, o Ciclo Operacional mostra o prazo de investimento de uma companhia.

Se o PMPC for superior ao PMRE, significa que parte das vendas da empresa está sendo financiada pelos seus fornecedores.

Esta é a situação ideal para qualquer empresa e é muito comum nas grandes redes de supermercados e empresas com grande Market Share.

O caso contrário, em que o PMPC é menor que o PMRE, demonstra que a companhia em questão está financiando suas vendas a prazo com seu próprio capital, o não é exatamente a situação ideal que se espera em qualquer empresa.

O tempo decorrido entre o momento em que a empresa paga os fornecedores e o momento em que recebe de seus clientes é chamada de Ciclo Financeiro, e é determinado mediante a subtração do PMPC do prazo de duração do Ciclo Operacional descrito acima.

PMPC – Duração do Ciclo Operacional = Duração do Ciclo Financeiro

Ebitda x Ciclo Financeiro

Como dito anteriormente, o Ebitda sugere uma geração de caixa potencial de uma companhia e, com isso, percebe-se que ele é diretamente relacionado com o Ciclo Financeiro da empresa.

Assim sendo, fica mais claro perceber que uma empresa pode operar gerando lucro líquido e consequente Ebitda positivos, e ao mesmo tempo em que termina o ciclo em questão tendo que queimar caixa e contrair dívidas para se manter ativa no mercado.

Isso é muito comum em empresas de construção civil, por exemplo, que costumam demorar bastante tempo para finalizar e entregar o seu produto.

Com isso, essas companhias costumam apresentar altos custos de produção (mão de obra, materiais, terrenos, etc.), que são geralmente pagos à vista ou a prazos muito curtos (baixo PMPC), ao mesmo tempo que demoram para vender os seus estoques (alto PMRE) e receber de seus clientes o capital proveniente da venda (alto PMRV).

Caso PDG

Um caso clássico é o que aconteceu com a PDG em 2013 que, na ocasião, realizou muitas receitas de vendas, gerando, assim, um alto Ebitda, porém, incompatíveis com a realidade.

Isso aconteceu por que não só a PDG, mas as construtoras e incorporadoras brasileiras, no geral, utilizam o método POC (percent of completion) para reconhecer as receitas das obras, abrindo espaço, com isso, para que sejam divulgados balanços trimestrais não condizentes com real contabilidade da empresa naquele momento.

O desafio do POC se faz ao prever os custos de uma obra e considerar que a evolução da construção será proporcional à evolução de seus gastos, com o reconhecimento proporcional das receitas.

Isso faz com que os resultados de curto prazo da empresa sejam temporariamente aumentados e passando uma percepção de grande performance naquele momento.

Dessa forma, o resultado da empresa era “turbinado” por um reconhecimento contábil dos custos e receitas das obras ainda em andamento que permitia o reconhecimento das receitas antecipadamente ao real estado das obras.

Contudo, esse fenômeno costuma criar, tempos depois, estouros no orçamento dessas mesmas construtoras no médio prazo.

Na ocasião, antes da situação se mostrar insustentável, a PDG distribuía polpudos bônus aos seus funcionários do alto escalão, por conta das altas receitas e aparente solidez que apresentava.

No primeiro trimestre de 2014 já era possível visualizar o aumento gradual das contas a receber da companhia, demonstrando que, de fato, ela se encontrava com dificuldades para reverter e seu lucro operacional (Ebitda) em caixa.

Contas PDG

Como consequência da não geração de caixa, um aumento gradual da dívida líquida da companhia foi se tornando, também, cada vez mais visível, chegando a atingir o patamar de R$ 7,1 bilhões.

Dívidas PDG

Com isso, o “truque” contábil gerou resultados de curto prazo inconsistentes com a realidade. O valor patrimonial das ações evaporou e hoje a companhia encontra-se em recuperação judicial.

Conclusão

O caso da PDG serve muito bem de alerta para que o investidor procure não só observar indicadores e resultados pontuais dos últimos balanços trimestrais das companhias, mas sim que se atente à toda a conjuntura que se encontra por trás daquele empreendimento naquele momento.

O Ebitda é um importante componente para se levar em consideração em uma análise, porém, é preciso que o investidor se atente para poder entender se aquela geração de caixa operacional apresenta, de fato, o potencial necessário que deve possuir para ser convertido em dinheiro no caixa da empresa naquele momento que, no final das contas, é o que importa no final da análise de um negócio.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.