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    A difícil cultura do longo prazo

    A difícil cultura do longo prazo

    Os empreendimentos mais importantes da História Ocidental foram as expedições marítimas financiadas pelas coroas da Península Ibérica, com o objetivo de encontrar novas rotas de comércio para a Índia. Uma das consequências desta iniciativa foi o descobrimento do Novo Mundo no fim do século XV, que logo ganhou o nome de “América”. A certidão de nascimento do Brasil, a propósito, é a carta escrita por Pero Vaz de Caminha em primeiro de maio de 1500. Como a frota de Pedro Álvares Cabral foi para a Índia antes de retornar a Portugal, esta carta chegou ao Rei Dom Manoel somente em 1501.

    As caravelas portuguesas só conseguiram retornar para a Europa, pois seus navegantes se guiavam pelas constelações. O trabalho intelectual dos marinheiros era noturno, observando as estrelas da abóbada celeste, que nunca mentem. Durante o dia, tudo o que era preciso fazer era manter a nau no rumo traçado – um trabalho meramente braçal de controlar o leme e ajustar as velas. Imagine você, esperar quase um ano para receber uma carta com o relato de que seu investimento deu certo, muito certo.

    Neste ponto você pode perguntar: “O que isso tem a ver com investir na bolsa de valores?” – Calma, que a gente já chega lá.

    Vamos pular alguns séculos. Estamos em 1844. Samuel Morse acaba de desenvolver um código de comunicação via telégrafo. A primeira linha liga as cidades de Baltimore e Washington. Sua patente o deixa rico, pois seu sistema de troca de mensagens representou uma revolução tecnológica dentro da Revolução Industrial, iniciada algumas décadas antes. O volume de informações – e a velocidade de circulação das mesmas – aumenta substancialmente entre governos, empresas, e mesmo entre as forças armadas.

    “OK, mas e a bolsa?” – Espere um pouco, estamos a caminho.

    O IMEDIATISMO É ANTINATURAL

    Estamos em 2018. Milhões de pessoas ao redor do mundo se comunicam através de aparelhos de telefone celular, munidos de aplicativos como o Whatsapp, que trocam mensagens instantâneas. Se em 1501 o rei de Portugal esperou meses para saber que seus comandados encontraram o paraíso em terras austrais, hoje nos irritamos se alguém demora mais de trinta segundos para responder ao nosso “bom dia” com um emoticon.

    Atualmente, o volume de informações que circula via smartphones em um minuto, é superior ao volume de informações que circulava por epístolas manuscritas durante semanas na Idade Média. Não é preciso ser um neurocientista para constatar que nossa mente não está preparada para lidar com tal cenário, por muito tempo. Nosso DNA evolui muito lentamente e não está programado para reagir a tantos estímulos. Por isso estamos conhecendo doenças novas e psicossomáticas: a ansiedade crônica, a depressão e o estresse mental.

    “Alô. Bolsa?” – É a nossa vez de perguntar: qual é a sua expectativa de retornos ao investir em bolsa de valores?

    Provavelmente, em algum momento, você já pensou em ficar rico rapidamente ao ingressar na bolsa. Se for o seu caso, não se culpe. Nós somos o tempo todo bombardeados por estímulos que nos levam a ser imediatistas.

    Vamos a uma lanchonete e queremos o sanduíche servido junto com a nota fiscal no caixa, pois as redes de fast-food nos acostumaram neste padrão de agilidade. Tem gente que compra ingressos de cinema pela internet, para não ter que esperar na fila presencial, antes da sessão começar.

    A audiência das corridas de Fórmula 1 está caindo, pois as pessoas estão perdendo a paciência de acompanhar um Grande Prêmio por mais de uma hora e meia. Até o hábito de ouvir discos de vinil caiu em desuso. Ao invés de ficar sentado durante quarenta minutos para apreciar um álbum, os jovens estão pulando faixas em seus aplicativos a cada quarenta segundos.

    Escrevemos um texto mais comprido e tem gente que não consegue terminar a leitura. Outros querem aprender temas complexos, como investimentos em renda variável, em vídeos no YouTube com duração máxima de cinco minutos – como se fosse possível para investidores com dez, vinte anos de mercado, passar todo o seu conhecimento dessa forma.

    Com todo o marketing de guerrilha e a publicidade agressiva disputando migalhas da nossa atenção, realmente fica difícil recomendar aos pretensos investidores que eles devem focar no longo prazo, quando eles têm no bolso um smartphone capaz de acessar a cotação de qualquer papel em tempo real.

    Muitos são levados a crer que podem comprar ações de manhã e vendê-las de tarde com algum lucro considerável, girando a carteira de investimentos como se ela fosse um cooler de processadores para computador.

    Porém, apesar de todas as evidências tecnológicas que nos fazem crer no contrário, investir em bolsa de valores é uma atividade que naturalmente deveria ser de longo prazo.

    A LONGA TRAVESSIA

    Investir na bolsa não é como compartilhar um meme no Facebook em troca de algumas curtidas. Investir é como escrever uma carta relatando a necessidade de ter uma vida mais segura e confortável, e embarca-la em um navio que atravessará o oceano em direção à independência financeira. Neste navio você também é o capitão. É preciso se guiar pelas estrelas.

    Quem são as estrelas do mercado financeiro? São os grandes investidores como Benjamin Graham, Jerome Newman, Warren Buffett, Charlie Munger, Luiz Barsi Filho. Nenhum deles foi imediatista. Todos abraçaram o Value Investing. Assim como eles, milhares de anônimos alcançaram o sucesso nas bolsas de valores. Em comum, tais investidores nunca se fixaram no sobe e desce das marés. O movimento das ondas e as flutuações do mercado não os deixaram enjoados. Ao fitar o horizonte, eles nos mostraram o caminho.

    A Suno Research quer ser sua parceira nesta longa travessia. Não prometemos lucros rápidos e não anunciamos milagres, mas conhecemos a rota. Ao fazer sua Assinatura Premium, você navega com a proteção do nosso encouraçado.

    Jean Tosetto
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    2 comentários

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    • Diego 25 de maio de 2019

      Caramba, esse texto realmente mudou meu jeito de pensar, me fez querer ler até o final, logo eu, que vejo vídeos por não gostar de ler, muito obrigado, o pensamento a longo prazo não deve ser cultura apenas de investidores mas de empreendedores, empresários e pessoas comuns como eu. Muito obrigado por essa experiência. Fico muito feliz em ver pessoas ajudando pessoas e fico feliz de ter lido até o final.

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    • Diego 3 de outubro de 2019

      Que texto !!! Parabéns !!!

      Responder