Por: Tiago Reis

Dicas para melhorar sua análise de empresas – Parte I

Tenho recebido muitas perguntas sobre análise de empresas nos últimos dias. Então, resolvi fazer uma série de textos em que apresentarei algumas dicas que podem ajudar a fundamentar melhor sua análise na hora de comprar uma ação.

Hoje apresentarei a primeira dica.

 

  • O fator mais importante em uma análise é o conhecimento do negócio.

Eliseu Martins, um dos principais contadores do Brasil, diretor da CVM por muitos anos, disse certa vez que “se não se sabe como funcionam os negócios numa empresa, não devem ser analisadas suas demonstrações”.

Concordo plenamente com Eliseu, uma vez que é impossível fazer projeções e análises verossímeis, sem conhecer profundamente o empreendimento.

Pense na seguinte situação. Certo dia você abre o jornal e se depara com uma notícia cuja manchete anuncia resultados extraordinários de uma rede de faculdades listada na bolsa de valores, com crescimento de 300% no lucro líquido.

Em um primeiro momento, podemos pensar que a empresa está crescendo muito, porém, isso pode não ser verdade.

Quando olhamos para as Demonstrações Financeiras da companhia, nos deparamos com uma receita não recorrente. A rede de faculdades havia vendido dois prédios naquele trimestre e o valor recebido pelas vendas afetou significativamente o resultado.

O aumento nos lucros foi bom para a empresa e para o acionista?

Como sabemos, empresas que atuam no setor educacional não tem como foco da operação a venda de imóveis, portanto, essa receita não será recorrente.

O acionista espera que a empresa gere lucros a partir da educação, com receitas provenientes de matrículas e outras fontes, a depender do modelo de negócio que a companhia utiliza.

Apesar do aumento significativo no lucro líquido, não podemos considerar que tal fato representa crescimento nas atividades centrais da empresa, pelo contrário, a venda de imóveis reduz a capacidade da companhia de matricular novos estudantes e aumentar as receitas recorrentes provenientes da educação.

Neste caso, o lucro não recorrente pode, inclusive, ser danoso para a geração de valor no longo prazo.

Sem conhecimento sobre o funcionamento do negócio, o investidor poderia imaginar que o aumento dos lucros representava um crescimento relevante na operação, o que deturparia significativamente sua análise.

Neste caso, é fácil perceber que o resultado foi afetado por uma receita não recorrente, entretanto, muitas vezes a percepção pode não ser trivial.

Vamos a outro exemplo. Caso alguém te perguntasse: qual das duas empresas é concorrente da Kopenhagen, a Garoto ou o Boticário?

Muito provavelmente, você responderia a Garoto, afinal de contas, a companhia também vende chocolate, correto?

Vamos analisar a situação. A Garoto, é uma das maiores fabricantes de chocolate do mundo. A empresa não possui lojas próprias e comercializa seus produtos através de redes de supermercado, onde compete com produtos da Lacta, da Nestlé, da Hershey’s e outros concorrentes.

Uma barra de chocolate da Garoto de 100g custa aproximadamente quatro reais, enquanto a barra de chocolate de 1kg está custando, atualmente, cerca de quarenta reais.

Agora pensemos na Kopenhagen. Diferentemente da Garoto, a Kopenhagen não comercializa seus produtos em supermercados. A empresa possui lojas próprias e geralmente, estas lojas são encontradas em grandes shoppings, aeroportos e em bairros comerciais de alto padrão.

Além disso, por mais que os produtos da Kopenhagen sejam feitos de chocolate, a empresa, na verdade comercializa presentes. Lembra da barra de chocolate da Garoto de quatro reais? Agora pense nos produtos da Kopenhagen.

A companhia vende uma caixa de rosas de chocolate, com aproximadamente 180g por cerca de sessenta reais. Com esse valor, você conseguiria comprar, em um mercado, cerca de 1,5kg de chocolate da Garoto.

Já conseguiu perceber a semelhança com o Boticário?

Assim como a Kopenhagen, o Boticário também comercializa presentes. Seus produtos são vendidos através de lojas próprias localizadas nos mesmos pontos de venda da Kopenhagen.

Geralmente, quando encontramos uma loja da Kopenhagen em um shopping ou aeroporto, no mesmo andar, encontramos uma loja do Boticário. A faixa de preço dos produtos é semelhante e, apesar de não vender chocolates, o Boticário vende presentes, assim como a Kopenhagen.

Isso mostra a importância de compreender profundamente o modelo de negócio da empresa para analisá-la. Caso não o compreenda, você pode adotar premissas completamente equivocadas que podem arruinar sua análise.

Portanto, o fator mais importante em uma análise é o conhecimento do negócio.

No próximo Suno Call, continuarei o texto apresentando mais dicas que podem te ajudar na análise de empresas.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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