Cuidado com altos dividendos

Muitas pessoas buscam atalhos para o sucesso e procuram uma forma de enriquecer rapidamente. Esse comportamento do ser-humano é muito antigo e parece estar enraizado no DNA de muitas pessoas, que até hoje são levados à acreditar em promessas de ganhos fáceis ou retornos elevados.

Não é difícil encontrarmos pela internet promessas de enriquecimento rápido e fórmulas milagrosas, a maioria delas ligadas à pirâmides financeiras disfarçadas e atividades suspeitas.

Há poucos anos tivemos o caso de uma suposta empresa que oferecia “serviços” de telefônia por internet, que prometia ganhos altíssimos, algo em torno de 15% ao mês, e tudo o que os “investidores” precisavam fazer era “aplicar” o dinheiro no esquema e esperar os retornos fantásticos. Nem precisamos detalhar muito que fim este caso levou: Cerca de 2 milhões de pessoas esperam até hoje o suposto ressarcimento, que provavelmente, jamais ocorrerá.

Muitas pessoas humildes, desempregadas, que recebiam um salário mínimo por exemplo, ou mesmo pessoas que chegaram à vender seus bens como carros e casa, foram seduzidas a entrar no esquema por conta da ilusão de ganhos fáceis. Perderam tudo, e muitos tiveram suas vidas verdadeiramente destruídas.

No mercado financeiro não é diferente e inúmeros investidores também são seduzidos pela ilusão de ganhos fáceis e milagrosos. Acreditam ter encontrado uma mina de ouro, uma fórmula secreta, algo muito valioso que apenas eles enxergam.

Uma dessas perigosas ilusões pode estar oculta também nos dividendos, e acredite, não é incomum vermos investidores (inclusive experientes) caindo no “canto da sereia” dos altos dividendos.

Com certa frequência podemos encontrar ações ou fundos imobiliários que estejam sendo negociados com um Dividend Yield muito elevado, algumas vezes acima de 20 ou 30% e essa métrica alta acaba enganando muitas pessoas no mercado.

Estes investidores pensam se tratar de uma grande oportunidade ignorada pelo mercado, e com certa prepotência por vezes assumem posições relevantes em ativos com estes perfis. De forma imprudente, o investidor compra o ativo sem analisar seu histórico e muitas vezes sem conhecer e entender a real situação, acreditando que estes dividendos altos continuarão por muito tempo.

DIVIDENDO NEM SEMPRE É SINAL DE SAÚDE FINANCEIRA

Algumas empresas pagam dividendos elevados mesmo sem estarem, de fato, numa situação agradável e lucrativa.
A empresa OI (OIBR4) é um exemplo desses. Durante anos a empresa apresentou resultados pífios e até mesmo prejuízos, mas não abria mão de pagar altos dividendos. A empresa chegou ao caso extremo de se endividar fortemente para realizar altos pagamentos de dividendos.

Perceba na ilustração como a empresa vinha pagando mais que seu efetivo lucro líquido.

gráfico oi brasil

 

Como resultado, os números operacionais da empresa se degradaram de forma relevante, a lucratividade foi extinta e a empresa entrou numa situação irreversível, com prejuízos bilionários e em recuperação judicial.

Prejuízos oi

 

As cotações da empresa que um dia estiveram acima de R$ 70,00, hoje negociam a menos de R$ 4,00. Ou seja, o investidor que possuía 100 ações da Oi que valiam R$ 7.000,00, hoje valeriam menos de R$ 400,00, além do fato do investidor não receber mais dividendo algum.

Outro caso semelhante e que demonstra que dividendo nem sempre é sinal de saúde financeira de uma companhia, é o da empresa Eternit. Uma empresa que foi lucrativa por muitas décadas e sempre foi referência para os acionistas que procuravam dividendos.

A Empresa sempre pagou altos dividendos, cerca de 80% do lucro nos últimos 10 anos, mas de alguns anos pra cá, passou a demonstrar sinais de instabilidade nos resultados, além de ter investido em projetos pouco rentáveis.

O momento era da empresa reduzir seu pagamento de dividendos e arrumar a casa, porém isso não foi feito. Alguns grandes acionistas até tentaram mudar o rumo da empresa, porém sem sucesso. (Este caso foi relatado em mídia nacional)

Gráfico Eternit

Hoje a empresa acumula prejuízos seguidos, e encontra-se numa situação extremamente delicada. Suas ações que já chegaram a custar R$ 12,00 hoje estão cotadas próximas de R$ 1,00 e se nada for feito, é possível que alcancem os centavos.

IDENTIFICANDO AS ARMADILHAS DE ALTOS DIVIDENDOS E SE PREVENINDO

Como vimos, se guiar apenas pelos altos dividendos é extremamente perigoso e pode levar investidores à situações irreversíveis. Na quase totalidade dos casos em que o ativo está com um alto DY é porquê há algo a se investigar mais profundamente.

Nos preocupamos com nossos assinantes e leitores, e temos receio que acabem em algum momento sendo seduzidos por estas situações. Por conta disso, resolvemos listar aqui algumas situações que estão, quase sempre, ocultas por trás de um alto Dividend Yield e o que o investidor deve fazer para evitá-las e identificá-las:

Lucros não recorrentes: Essa é a “campeã” dos motivos que tornam o Yield de uma ação muito alto e é a que mais engana investidores. É comum empresas em algum momento obterem ganhos extraordinários e pontuais, resolverem distribuir estes lucros aos acionistas, gerando estas distorções nos indicadores. Estes ganhos normalmente são provenientes da venda de ativos, de empresas controladas, de imóveis, ganhos judiciais, etc.

É recomendado que sempre antes de comprar uma ação, o investidor conheça a empresa e a situação por qual ela passa, analise seus números, verifique o histórico de lucros para ver se encontra alguma distorção, analise e tenha conhecimento do seu Payout e se precisar, fale com o RI (Relações com Investidores) para maiores esclarecimentos.

 

Empresa utilizando reservas de lucros: Por muitas vezes as empresas optam por distribuir, pontualmente e esporadicamente, parte de seu caixa acumulado com retenções e reservas de lucros passados. Uma empresa que tem um lucro anual de R$ 100 milhões, que paga normalmente R$ 50 milhões por ano aos seus acionistas em proventos e possui uma reserva de lucros de R$ 400 milhões, caso resolva utilizar R$ 300 milhões de sua reserva para distribuição de dividendos extraordinários, certamente elevará bruscamente o Dividend Yield dessa ação e irá criar uma distorção.

Essa empresa hipotética provavelmente levará muito tempo para repetir uma distribuição similar, e portanto, naturalmente voltará à ter um Dividend Yield menor. O investidor deve sempre analisar se as últimas distribuições de dividendos estão em linha com o lucro líquido obtido. Caso as distribuições estejam muito acima do lucro líquido em um determinado período, a empresa pode estar usando suas reservas de lucros.

 

Fundos imobiliários em “RMG”: A Renda Mínima Garantida (RMG) dos fundos imobiliários também já levaram muitos investidores ao prejuízo. Em meados de 2012 muitos fundos imobiliários foram lançados no mercado com preços bastante elevados, e como forma de atrair investidores, os fundos vinham com uma promessa de renda garantida, por vezes de valores elevados.

Esta renda garantida, no entanto, tinha data de validade, e no momento que se encerrasse, o investidor passaria a receber apenas os resultados reais do fundo, ou seja, as rendas de aluguéis de um imóvel por exemplo. Ocorre que na maioria desses casos, quando a RMG chegava ao seu fim, a renda real do fundo era muito inferior à renda garantida que estava sendo pagava, por vezes a renda real era zero, e como consequência o investidor acabava vendo suas cotas se desvalorizarem de forma relevante e deixando de receber seus dividendos.

No caso dos fundos imobiliários, é sempre importante o investidor verificar o resultado real do empreendimento ou ler seu prospecto, na parte dos riscos. Se o fundo está pagando de forma constante muito acima de sua renda verdadeira, é provável que esteja em período de Renda Garantida.

Tivemos inúmeros casos de fundos imobiliários que durante o seu período de renda garantida sofreram fortes quedas, fazendo com que no fim não tenha compensado receber todos aqueles dividendos da renda garantida.

Um exemplo legítimo destes é o caso do fundo RB General Shopping Sulacap FII (RBGS11). O fundo foi lançado em 2012 e prometia uma renda mínima garantida equivalente a 85% do CDI sobre a cota de emissão, que era de R$ 100,00.

O Shopping durante 4 anos pagou sua renda garantida corretamente, que era de cerca de 85% do CDI sobre o valor de emissão de R$ 100,00, porém as cotações não paravam de cair desde o lançamento do fundo. O resultado das operações do Shopping estavam muito ruins e não evoluíam, com uma renda real por cota em torno de R$ 0,18 ao mês. A renda garantida com o CDI nas alturas esteve próxima à R$ 1,00, então imaginar que a renda cairia em breve para R$ 0,18 ou menos, era de fato, um desastre.

Conforme se aproximava o fim da Renda garantida, mais quedas as cotas sofriam, chegando à preços em torno de R$ 33,00. Um fundo que havia sido lançado há 4 anos atrás, estar agora valendo R$ 33,00 é realmente uma decepção.

rgbs

Estes são apenas alguns dos inúmeros casos que já ocorreram e que levaram investidores à prejuízos consideráveis, e que infelizmente, são frequentes até hoje.

Entendemos que se os investidores seguirem estas orientações, já estarão mais preparados para reconhecer e evitar este tipo de perigo, porém este artigo é apenas uma pequena parte do longo processo de aprendizagem de um investidor.

Recomendamos ao investidor sempre obter o maior conhecimento possível, se aprofundar nas empresas que investe e jamais investir em um ativo apenas por um dado isolado, como, nesse caso, o Dividend Yield.

Com investidores mais conscientes, estudiosos e disciplinados, estaremos cada vez mais desmistificando a ideia de ganhos fáceis no mercado e aos poucos vai sendo sepultada a associação da bolsa de valores ao cassino, o que é extremamente benéfico ao nosso mercado e à nação no longo prazo.


Quer investir em dividendos com sucesso? Clique aqui e saiba como a Suno pode te ajudar

Comentários

©2017 SUNO RESEARCH | Investimentos inteligentes

[i]
[i]

Fazer login com suas credenciais

ou    

Esqueceu sua senha?

Create Account