Por: Tiago Reis

Crise econômica: oportunidade ou ameaça?

Vivemos em um país onde as crises são frequentes. São momentos delicados em que o ciclo econômico desacelera, o Produto Interno Bruto deixa de crescer, as taxas de desemprego se elevam, o consumo cessa e o mercado de ações despenca.

Assim como trazem riscos, as crises são repletas de oportunidades. Você, como investidor, já deve ter ouvido isso uma dezena de vezes. As crises econômicas são como uma grande promoção para os investidores, que podem adquirir ativos financeiros a preços extremamente descontados devido à insegurança do mercado.

Para as empresas, entretanto, as crises geralmente trazem diversos riscos. As receitas de inúmeros setores diminuem, os fluxos de caixa deixam de ser pujantes, o crédito passa a ser limitado, seu custo se eleva significativamente e a necessidade de honrar compromissos onerosos se torna um desafio que leva muitas empresas à recuperação judicial ou falência.

Entretanto, uma empresa também pode usufruir de oportunidades durante uma crise. Os ativos se tornam mais baratos, assim como a força de trabalho. Novas aquisições podem ser feitas a preços que não seriam possíveis em momentos de crescimento econômico.

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Deste modo, qual será o posicionamento mais interessante para uma empresa sair da crise: investir ou desinvestir?

Caroline Flammer, pesquisadora da Questrom School of Business da Universidade de Boston, juntamente com Ioannis Ioannou, professor de estratégia e empreendedorismo da London Business School, conduziram um estudo, em outubro de 2018, com o objetivo de descobrir como as empresas ajustam seus investimentos em recursos estratégicos em resposta às crises econômicas – mais especificamente, à recente crise de 2008.

A crise de 2008 resultou no colapso do mercado financeiro americano, trazendo diversas mudanças regulatórias e políticas, como consequência de uma forte contração da economia global.

Uma crise econômica desse porte afeta todos os aspectos de uma empresa, seja no ambiente interno ou externo, incluindo todo o relacionamento com os clientes, fornecedores, colaboradores, acionistas e demais stakeholders envolvidos.

A crise gera uma enorme mudança no panorama competitivo da indústria, favorecendo as empresas que conseguem utilizar seus recursos estratégicos com sapiência durante o período de incertezas.

Flammer e Ioannou perceberam duas abordagens possíveis que as empresas poderiam utilizar na tentativa de sobreviver à crise de 2008. Em primeiro lugar, elas poderiam poupar para sobreviver à crise.

Para isso, as empresas reduzem o quadro de colaboradores, desinvestem em ativos fixos – ou ao menos cortam os investimentos em bens de capital (CAPEX) – adiam, ou até cancelam, projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e eliminam programas de CSR (Corporate Social Responsibility), numa tentativa de manter os fluxos de caixa suficientes para arcar com o cenário instável.

A outra possibilidade seria utilizar investimentos como forma de sair da crise. Aproveitando as oportunidades de adquirir ativos e força de trabalho a preços descontados, as empresas podem utilizar a crise para expandir suas atividades, ganhando mercado da concorrência que está poupando recursos na tentativa de sobreviver.

O estudo indica que nenhuma das duas soluções é a melhor maneira de sair da crise. Empresas que cortaram seus gastos não conseguiram sustentar a competitividade com o reaquecimento da economia, enquanto, por outro lado, empresas que mantiveram seus investimentos não sustentaram fluxos de caixa saudáveis até o término da crise.

Entretanto, um terceiro grupo de empresas conseguiu apresentar resultados satisfatórios com o reaquecimento da economia. Este grupo equilibrou os desinvestimentos e os investimentos para manter a competitividade sem comprometer os fluxos de caixa da empresa.

Os melhores resultados foram apresentados pelas empresas que reduziram seus investimentos em bens de capital (CAPEX) e seus quadros de colaboradores, mas mantiveram seus investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e em CSR.

Isso sugere que investimentos em capacidade de inovação e relacionamento com stakeholders, sejam eles clientes, funcionários, fornecedores ou acionistas, auxiliam na manutenção da competitividade durante uma crise econômica.

Tal cenário não se mostrou verdadeiro apenas nas indústrias onde a inovação e relacionamento com stakeholders não se configura como peça-chave da competitividade (indústrias onde não há diferenciação de produto, por exemplo).

Além de auxiliar a sobrevivência durante a crise, as empresas que sustentaram os investimentos em P&D e CSR apresentaram resultados superiores no período posterior à crise, o que evidencia que tais investimentos contribuem para a competitividade no longo prazo.

Em contraste, empresas que, além de realizar estes investimentos, mantiveram os gastos com CAPEX e colaboradores, não apresentaram performance superior nos anos posteriores à crise.

Este estudo se torna relevante à medida que mostra, contraintuitivamente, que a melhor maneira de uma empresa sobreviver a uma crise econômica é utilizar seus recursos estratégicos de maneira a sustentar sua competitividade sem expandir suas atividades.

A expansão das atividades compromete os fluxos de caixa e dificulta a retomada dos resultados eficientes em períodos posteriores às crises, enquanto a manutenção da competitividade permite uma rápida recuperação do crescimento quando a economia passa a reaquecer.

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Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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