Por: Jean Tosetto

A casa própria é um bom investimento?

O educador financeiro Marcelo Veiga chamou a atenção do público focado em investimentos ao divulgar um vídeo denominado “Comprar casa é para otário” onde ele repercute o conteúdo de uma publicação norte-americana elencando as razões para não se investir na aquisição da casa própria.

A ressalva que se faz para os argumentos de Veiga, é que ele se refere ao financiamento da compra da casa própria, que amarra o casal por muitos anos em função das parcelas que podem comprometer até um terço da renda familiar. A abordagem ao tema, porém, não é completa, pois não menciona aqueles que decidem construir uma casa – alternativa em que muitas vezes a economia supera os 30% em relação à aquisição de imóvel pronto.

Em outras ocasiões, Marcelo Veiga afirma que deu um grande salto em direção à sua independência financeira ao se desfazer de um financiamento imobiliário. Na própria Suno Research temos outro exemplo nessa linha: seu fundador, Tiago Reis, embora tenha atingido a independência financeira antes dos 30 anos de idade, ainda prefere pagar aluguel para morar em São Paulo.

Minha opinião sobre este tema é suspeitíssima, pois antes de me tornar colaborador da Suno, já contava com quase duas décadas de experiência como arquiteto que desenvolve projetos residenciais. Portanto, buscando ser o mais imparcial possível, não apresentarei meu parecer antes de citar as referências mais importantes que temos neste assunto, que encontramos nos livros voltados ao tema da prosperidade e na trajetória de grandes investidores.

LIQUIDEZ COMO VANTAGEM ESTRATÉGICA

Max Gunther, autor de “Os axiomas de Zurique”, considera que preservar a capacidade de mobilidade é importante para o especulador – que ele faz questão de igualar ao investidor. No sexto grande axioma, justamente sobre a mobilidade, ele relata o que ocorreu com um casal que relutou em vender a casa própria após a quitação de uma hipoteca.

Apegado às raízes e às lembranças familiares, o casal demorou em decidir pela venda do imóvel, mas a decadência do bairro e a mudança de perfil da vizinhança derrubou o valor da residência, que já era grande demais, uma vez que os filhos já haviam se mudado. Gunther trata do apego das pessoas por suas casas como algo típico da mentalidade da classe média.

MORAR SEMPRE É DISPENDIOSO

Já Robert T. Kiyosaki, da série de livros denominada “Pai rico, pai pobre”, não é tão explícito com relação ao tema, exceto pelo fato de ensinar para seus leitores que eles devem separar em colunas distintas os seus ativos e os seus passivos. Em linhas gerais, ativos são bens que colocam dinheiro no seu bolso e passivos são compromissos que tiram dinheiro do seu bolso.

Se interpretarmos que a casa própria não gera renda para seu dono, logo ela será um passivo. Como o caminho para se atingir a independência financeira passa pela redução dos passivos combinada com a ampliação dos ativos, cabe ao interessado avaliar em que situação estará gastando menos dinheiro com sua moradia.

Neste ponto, são várias as alternativas. Podemos comparar uma casa financiada com uma casa alugada e verificar os custos mensais da dívida com o pagamento do aluguel, onde a diferença poderá ser investida com juros vantajosos.

Porém, como proceder se a casa for herdada ou adquirida com recursos próprios? No interior é comum vermos casas próprias com edículas alugadas nos fundos – e aqui o imóvel como um todo pode tornar-se um ativo, como acontece em apartamentos sobre lojas, também alugadas.

RECEBER OU PAGAR ALUGUEL?

No Brasil o aluguel não tem boa rentabilidade, você pode afirmar. E vamos além: em muitas regiões do país, o aluguel perde até apara a caderneta de poupança em rentabilidade, fora as despesas com manutenção. Tudo isso deve ser ponderado.

É com esta ponderação que devemos ler “Os segredos da mente milionária” onde T. Harv Eker escreve com foco na realidade dos Estados Unidos, onde os juros da economia são baixos e o aluguel é considerado uma fonte de renda atrativa. O autor é entusiasta do investimento em imóveis, como Kiyosaki também é – se bem que sua visão é mais voltada para a compra e venda de edificações, após um período de maturação.

Quem acompanha os vídeos do Professor Marcos Baroni no canal da Suno no YouTube, sabe que os Fundos Imobiliários representam uma alternativa inteligente ao patrimônio imobilizado em edificações para aluguel. A questão é que não podemos morar nas cotas de tais investimentos, embora a renda passiva gerada por eles possa nos garantir um teto na condição de inquilinos.

CONSELHOS E SOLUÇÕES

No Brasil, temos o exemplo de Décio Bazin, autor do livro “Faça fortunas com ações”. Na página 112 da sétima edição ele dá o seguinte conselho a um jovem investidor que morava num apartamento alugado e pretendia se casar:

“No mundo dos investimentos, ninguém é vencedor se não tiver casa própria. A primeira prioridade é ser dono do recanto em que você mora. Só depois disso é que pode entrar com firmeza na Bolsa.”

“Casa própria é a base da vida. Ter casa própria livra a pessoa de inumeráveis dissabores, o menor dos quais é ter de periodicamente procurar moradia e submeter-se às humilhações que são impostas pelas administradoras de imóveis.”

“Como você não tem casa própria, digo-lhe com toda a lealdade que procure comprar uma, custe o que custar em sofrimento e privações. Só então terá o espírito livre para investir”.

As palavras de Bazin ecoam o conceito desenvolvido por George S. Clason numa de suas histórias reunidas sob o título de “O homem mais rico da Babilônia”. No capítulo que trata das “Sete soluções para a falta de dinheiro”, o personagem Arkad apresenta a quinta solução: “Façam do lar um investimento lucrativo”. Para Clason, morar sob o próprio teto seria uma fonte de tranquilidade para a família e um ponto de partida para aqueles que desejam progredir em termos patrimoniais.

IMÓVEL VALORIZA NA LOCALIZAÇÃO CERTA

Se não temos a opinião expressa do próprio rei da Babilônia sobre o tema, há ao menos o exemplo que vem de grandes e bem-sucedidos investidores de nossa era. Logicamente nos referimos ao maior de todos, que atende pelo nome de Warren Buffett.

De acordo com o site “Business Insider”, Buffet mora em Omaha, no Nebraska, numa casa de padrão médio que vale atualmente apenas 0,001% de sua riqueza total. Mas tem um detalhe: a casa foi comprada em 1958, pesando bem mais na sua relação de bens.

Em valores corrigidos, Buffett pagou cerca de U$ 250.000 pelo imóvel, que vale atualmente mais de U$ 650.000 – o que fez o bilionário declarar, certa vez, que sua casa foi o “terceiro melhor investimento que ele já fez”. Perguntado sobre o motivo de nunca ter se mudado para uma casa maior, ele respondeu: “Estou feliz por isso. Eu me mudaria se achasse que ficaria mais feliz em outro lugar”.

A VOZ DA EXPERIÊNCIA

Das cartas do megainvestidor Luiz Barsi Filho, publicadas pela Suno, reproduzimos a questão do leitor Flávio Benega:Devo comprar um imóvel ou investir o valor em ações?” – Confira a resposta do nosso grande mentor:

“Eu diria o seguinte, antes de começar a comprar ações comprei o meu imóvel para morar. Tenho a sensação que, para investir e fazer uma carteira de previdência, você terá que fazer com aquilo que é o excedente, aquilo que você tem como uma poupança.”

“Agora, se você não tem uma propriedade para morar, então acho que essa seria a prioridade, em vez de comprar as ações para eventualmente ganhar dinheiro no mercado através de uma carteira de previdência.”

“A carteira de previdência se forma de uma maneira mais longa, então acho que comprar um imóvel para morar é absolutamente prioritário. Aliás, é uma das necessidades vitais do ser humano. Então, diante dessas circunstâncias, não há dúvida que comprar um imóvel para morar seria uma prioridade absoluta.”

O TESTEMUNHO DE QUEM TRABALHA COM CASAS

Como arquiteto e colaborador da Suno, acredito que agora posso escrever em primeira pessoa para afirmar que a questão da casa própria, em relação aos investimentos, não deve ser vista como algo antagônico ou excludente. Não se trata de comprar a casa própria OU investir para o futuro. As duas ações podem ser concomitantes.

Vou além: conforme tenho observado nestes anos todos projetando e acompanhando obras residenciais, vejo que muitas pessoas que optam por construir a casa própria, ao invés de comprar uma pronta, naturalmente já tem o perfil empreendedor necessário para ser bem-sucedido, também, em questões financeiras.

MENTALIDADE CONSTRUTORA

Poderia citar vários casos de gente que constrói uma casa e alguns anos depois me procura novamente, desta vez para projetar a nova sede de sua empresa, ou uma loja, ou ainda uma edificação de grande porte.

Por exemplo, há pouco mais de 15 anos recebi em meu escritório um jovem que dividia o volante de um velho caminhão com seu irmão. Ele transportava cargas de um fábrica de papelão da nossa cidade e havia acabado de comprar um terreno numa rua sem saída. Projetei uma pequena casa de fundos para ele, com apenas dois quartos.

Recentemente ele me procurou novamente. Agora, ele já era dono de uma transportadora com dezenas de caminhões novos. Seu desejo era diversificar suas fontes de renda, sempre em parceria com seu irmão. Desenvolvi para ambos dois galpões de logística, com mais de 1.800 metros quadrados cada um.

No momento de formalizar o contrato, pedi para anotar seu endereço, ao que ele me informou que era na mesma casa que havia projetado, com a diferença que ele fez um dormitório a mais – ocupando parte da varanda – e instalou uma piscina no grande jardim frontal.

Veja que seu progresso, em parte, se deveu ao seu comedido padrão de vida. Muitos empresários já teriam se mudado de casa assim que o segundo caminhão da transportadora começasse a render dividendos. Por isso não posso mentir: também já vi casais se separando pouco tempo depois de concluir a construção de uma bela casa – isso infelizmente é mais comum do que se pode imaginar.

Ou seja, não é uma casa que leva a pessoa para a ruína ou para a estrada da prosperidade. É a atitude de cada um que conta. Para quem consegue viver com menos do que ganha e sabe investir a diferença, não há limite a ser estabelecido, salvo o tempo finito que temos neste planeta.

TETO COMO MARGEM DE SEGURANÇA

Pessoalmente, acredito que investidores que tenham casa própria são mais conservadores e defensivos em suas análises. Não tenho dados estatísticos, mas me parece que, no mercado financeiro, quem arrisca tudo é justamente quem não tem nada a perder.

Um proprietário de casa dificilmente vai operar alavancado com vendas descobertas, ao menos se ele pensar no longo prazo e nos retornos satisfatórios que sejam garantidos. E aqui escreve um arquiteto investidor que tem escritório na própria casa, que se está longe de ser um palacete, é um porto seguro para minha família.

NÃO HÁ VEREDITO

O objetivo destas palavras não é mudar a sua opinião. Se você está convicto que morar de aluguel é melhor para seus investimentos, ótimo. Mas se você tem o legítimo sonho de morar na casa própria e se sente incomodado com argumentos em contrário, saiba que você não está cometendo pecado algum. Pecado é ser levado sem questionamento ao sabor dos ventos.

Se você tem casa própria e está pensando em vendê-la para aumentar os aportes nos seus investimentos, recomendo que analise a sua casa do mesmo modo como um investidor de valor analisa uma ação de sua carteira. Geralmente investidores de longo prazo só vendem ações quando elas perdem seus fundamentos.

Independente de qual seja seu caso, espero que a leitura destas linhas tenha lhe ajudado.

Jean Tosetto

Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

2 comentários

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  • Fernando 31 de maio de 2019

    Seus textos me ajudam muito, são clareadores de caminhos, mostram perspectivas diferentes, ajudam a pensar melhor, fora zona restrita de conhecimento que podemos ter.
    Tenham um bom dia vocês da Suno.

    Responder
  • Victor Alexandre Bruzi 3 de junho de 2019

    Que texto. Estão de parabéns.

    Responder
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