Os mitos da Bolsa de Valores

O antigo mundo greco-romano era povoado por deuses e mitos. As cidades costeiras do Mediterrâneo eram ricas em altares nos quais o politeísmo era plenamente aceito. Tais deuses e mitos, antes infalíveis e inquestionáveis, começaram a ruir por causa dos primeiros filósofos, que buscavam explicar a origem do homem e dos fenômenos naturais através de argumentos racionais.

Antes de serem os primeiros caçadores de mitos da nossa era, os filósofos foram também os primeiros cientistas. Mas talvez o maior demolidor de mitos de todos os tempos foi Paulo de Tarso, que pregou sobre um único Deus desconhecido em pleno anfiteatro de Atenas, diante de filósofos epicureus e estoicos, no primeiro século depois de Cristo.

A derrubada de mitos iniciada por Paulo transformou a cultura do Ocidente, cujo paulatino desenvolvimento científico propiciou a Revolução Industrial e a implantação do Capitalismo, moldando os parâmetros da modernidade que perduram até hoje, inclusive aqueles que questionam o próprio monoteísmo.

Engana-se, porém, quem pensa que os mitos são coisas do passado. Eles estão presentes no cinema, por exemplo, através de filmes como “Guerra nas Estrelas” e de super-heróis dos gibis, como Batman e Thor. A mitologia virou produto de consumo de massas num ramo altamente lucrativo.

Se antes os mitos eram associados com narrativas de caráter moral, agora também se relacionam com dogmas perpetuados pela falta de conhecimento dos atores nas mais diversas atividades humanas.

O mercado financeiro não está imune aos dogmas, mesmo com toda a racionalidade requerida de seus principais agentes. É o misticismo em torno das bolsas de valores que afasta muitos investidores em potencial.

É para este público que nos dirigimos neste momento. Escolhemos três mitos relacionados com as bolsas de valores, que vamos confrontar com histórias reais, vividas por gente de carne e osso, sem poderes divinos.

Mito número 1: investir em Bolsa é muito arriscado – é para especialistas.

Investir na Bolsa de Valores é tão arriscado quanto pedalar uma bicicleta ou nadar num lago de águas calmas, desde que você não tenha prática e equilíbrio, ou não conheça o ambiente. Tem gente com receio de comprar ações de grandes empresas, mas que sai para pedalar no acostamento de rodovias interestaduais.

Pior são aqueles que saltam do alto de árvores em lagos nunca antes visitados, sem ter noção da profundidade dos mesmos, ou da eventual existência de pedras próximas da superfície.

Sim: mergulhar de cabeça na Bolsa pode ser arriscado. Pedalar ao lado de carros, motos e caminhões velozes também. Mas se o novato for tateando o ambiente, escolhendo vias mais seguras, como ações que historicamente pagam bons dividendos ou cotas dos melhores fundos imobiliários, então o risco será atenuado.

É preciso ser um especialista ou ter educação formal na área de finanças para investir na Bolsa? Não, se o investidor em potencial buscar informações nas fontes corretas. É preciso ter uma inteligência acima da média? Também não, desde que o indivíduo em questão tenha as faculdades mentais suficientes para tomar decisões com autonomia.

Curt Degerman ganhava a vida empurrando sua bicicleta, procurando latas e garrafas descartadas nos cestos de lixo da cidade de Skellefteå, no interior da Suécia. Era um sujeito solitário, desses que vemos aqui no Brasil e comentamos: “esse cara não bate bem da cuca”.

Torgny Tjernlund, seu primo, era a única pessoa da família que o visitava regularmente. Por isso, ele foi o único mencionado no testamento de Curt, quando este faleceu em 2008, aos 60 anos de idade.

Torgny ficaria com sua bicicleta? Também. Mas o patrimônio de Curt incluía a casa própria, uma boa quantia de coroas suecas depositadas num banco, 124 barras de ouro e um portfólio de ações e fundos mútuos que equivaliam a dois terços de sua pequena fortuna de 1,4 milhão de dólares, que corrigidos para 2017 equivalem a pouco mais de quatro milhões de reais.

Ao saber do valor deixado por Curt, seu tio de 92 anos, Gunnar Karlsson, solicitou na justiça, por intermédio de seu filho Stig, um quinhão da dinheirama, fazendo um acordo com Torgny.

Qual era o segredo de Curt Degerman para acumular tantos recursos para um catador de latas? Ele frequentava a biblioteca pública da cidade, onde lia o principal jornal financeiro da Suécia, o Dagens Industri. Degerman queria aprender tudo sobre investimentos.

Curt era autodidata, estudava e investia por conta própria. Isso derruba o primeiro mito da nossa pequena lista. Mas ele começou rico? Não. Sua renda obtida no trabalho era ínfima. Isso nos leva ao próximo dogma.

Mito número 2: é preciso ser rico para investir na Bolsa.

Ronald Read era frentista de um posto de combustíveis na cidade de Brattleboro, em Vermont, Estados Unidos. Na verdade, ele teve dois empregos: foi zelador também – embora isso não significasse grande aumento na sua renda.

Ele serviu na Segunda Guerra Mundial, passando pelo norte da África, pela Itália e pela região do Pacífico. Quando os conflitos cessaram, em 1945, ele voltou para sua cidade natal, onde trabalhou no posto de gasolina de seu irmão por 25 anos, até se aposentar. Cansado de não fazer nada, voltou a trabalhar como zelador de uma loja até 1997.

Ronald tinha uma vida extremamente simples e regrada. Ele cultivava o hábito de poupar dinheiro e evitava gastá-lo com coisas supérfluas. O que pouca gente sabia é que ele investia através da Bolsa de Valores.

Seu perfil era de investidor de longo prazo, que comprava e abraçava as ações por tempo indefinido. Algumas de suas ações ficaram em sua carteira por décadas. Esta paciência o ajudou a viver por 92 anos.

Read tinha preferência por ativos que pagavam bons dividendos, como as proprietárias das estradas de ferro, empresas de serviços públicos e telecomunicações, além de bancos, empresas do setor da saúde e de produtos de consumo. Ele reinvestia os dividendos que recebia regularmente.

Sua diversificação atingiu 95 ações de grandes empresas como Procter & Gamble, JPMorgan Chase, General Electric, Johnson & Johnson e Dow Chemical. Read evitava ações do ramo da tecnologia e papéis especulativos da moda. Ele perdeu dinheiro com a quebra do Lehman Brothers, mas estava devidamente protegido pelos outros ativos.

Ao morrer em 2014, viúvo e sem filhos, Ronald Read deixou 4,8 milhões de dólares para o hospital Brattleboro Memorial e 1,2 milhão de dólares para a biblioteca municipal de sua cidade. Ao todo, Read acumulou um patrimônio de oito milhões de dólares – em valores corrigidos para 2017, estamos tratando de mais de 30 milhões de reais.

Read não começou a investir em Bolsa com muitos recursos. Ele era um comprador de ativos costumeiro: aplicava um pouco por mês. Sua vida de disciplina e sacrifícios rendeu as maiores doações já recebidas pelas instituições de Brattleboro, o que nos leva a demolir, também, o próximo mito.

Mito número 3: os capitalistas não se importam com os outros.

Se você disser que comunistas comem criancinhas, as pessoas sabem que sua afirmação é exagerada, quase uma piada. Mas quando as charges nos jornais retratam os capitalistas – o que engloba quem investe em Bolsa de Valores – os ilustram como homens barrigudos de cartola, com um charuto pendurado no canto da boca mostrando dentes escancarados abaixo de sobrancelhas pontiagudas. Uma caricatura veladamente aceita, que não corresponde à realidade.

O estereótipo do capitalista como um sujeito ganancioso e sem escrúpulos, egoísta até dentro de casa, é reforçado em filmes e programas de TV ideologicamente direcionados para o grande público, incutindo a ideia de que dinheiro é algo sujo e relacionado com a corrupção, na qual os países imperialistas oprimem as nações menos desenvolvidas.

Estes rótulos afastam as pessoas do mercado de capitais. Talvez se elas conhecessem exemplos de investidores que contrariam esta visão distorcida e tendenciosa do sistema capitalista, elas poderiam mudar de ideia.

Para tanto, reproduzimos um trecho da terceira aula do curso da Suno Research sobre “Value Investing”, com o breve perfil de um renomado capitalista:

William J. Ruane formou-se em Engenharia Elétrica pela Universidade de Minnesota em 1945 com apenas 20 anos de idade. Estudou também na Harvard Business School onde se graduou em 1949.

Ruane fundou sua própria firma de investimentos em 1970, a Ruane & Cunniff, em parceria com Rick Cunniff, lançando no mesmo ano o Sequoia Fund. 34 anos depois a empresa foi renomeada para Ruane, Cunniff & Goldfarb, após Robert Goldfarb tornar-se o presidente da mesma.

Em 1992, Ruane adota uma extensa área do Harlem em Nova York, com vistas a revitalizá-la, reformando prédios e implantando clínicas, além de programas de serviços comunitários. O investidor concedeu a cada criança do entorno uma bolsa de estudos para uma escola católica. Ele também financiou programas em escolas públicas e contribuiu para causas de saúde mental.

Ruane morreu de câncer em 2005, aos 79 anos de idade, mas sua firma de investimentos continuou. Em 2008, o Sequoia Fund anunciou que abriria seu fundo para novos investidores pela primeira vez desde 1982.”

O exemplo de Ruane não é isolado. Boa parte dos grandes investidores americanos do século 20 também ingressou na filantropia. Irving Kahn alcançou impressionantes 109 anos de idade: ele foi discípulo direto de Benjamin Graham e, após fazer fortuna, dedicou-se ao Centro de Emprego e Carreira da Cidade de Nova York e à Fundação Judaica para Educação das Mulheres.

Walter Schloss foi tesoureiro da Freedom House, uma entidade sem fins lucrativos, fundada em 1941 por Eleanor Roosevelt para promoção da democracia, dos direitos humanos, da economia de livre mercado, do estado de direito e da independência dos meios de comunicação, em defesa de jornalistas e escritores vítimas de perseguições políticas. Schloss tinha consciência de que as pessoas poderiam ajudar o próximo com mais eficácia se tivessem os próprios problemas resolvidos.

Você está achando pouco? Então vamos recorrer ao megainvestidor Warren Buffett, o principal gestor da Berkshire Hathaway. Em 2006 ele declarou que, após seu passamento, 85% do capital de sua empresa seria destinado para cinco fundações diferentes, das quais cerca de 30 bilhões de dólares somente para a Fundação Bill e Melinda Gates – fundadores da Microsoft.

Esta instituição de caridade tem como objetivo promover a educação e o acesso à tecnologia, como forma de combate à pobreza, financiando ainda projetos de pesquisas que, entre outros objetivos, buscam a criação de uma vacina contra a AIDS.

O maior investidor da história também fez a maior doação da história. Quantos ativistas reunidos – que passam a vida com um megafone acoplado na garganta, gritando palavras de ordem contra os capitalistas – seriam necessários para igualar o feito de Buffett?

Mesmo que os investidores não façam doações para a caridade, eles já contribuem para as questões sociais. Quem investe seu capital em grandes empresas, reforçando seu valor de mercado, ajuda na criação e manutenção de empregos, no pagamento de impostos que financiam o Estado que deve, por concepção, zelar pelo bem-estar social.

Investir é realizar

Todos os investidores citados neste artigo tiveram algo em comum: eram poupadores disciplinados, pensavam no longo prazo e evitavam as especulações. Buffett ainda conserva tais características.

Nenhum deles realizou os doze trabalhos de Hércules. Ninguém precisou passar pelo Minotauro no labirinto da ilha de Creta. Metaforicamente eles não caíram no canto das sereias, mas empregaram jornadas dignas de heróis que deixaram um legado positivo para a sociedade.

Suno significa “sol” em esperanto. A Suno Research – casa de pesquisas independentes sobre investimentos – surgiu para iluminar o caminho dos investidores que desejam empregar a jornada rumo à independência financeira. Sem mitos. Sem histórias da carochinha.

A Suno fornece relatórios sobre os melhores ativos da Bolsa de Valores de São Paulo, direcionados para investidores de valor que pensam no longo prazo. Faça sua Assinatura Premium hoje mesmo.

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Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor de dois livros, é adepto do "Value Investing". Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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