Por: Tiago Reis

Bolhas econômicas

No contexto da economia e do mercado financeiro, uma bolha geralmente diz respeito a uma situação na qual o preço de um ativo excede o valor intrínseco por uma margem exagerada. Tal aumento exagerado de preços leva a uma desconexão do preço com o valor intrínseco.

Uma característica básica das bolhas é a suspensão de descrença pela maioria dos indivíduos envolvidos na fase da bolha. Por suspensão de descrença, deve-se entender como a suspensão do pensamento crítico do espectador, de modo que passa a aceitar premissas que são impossíveis.

Sendo assim, um dos fatores que causam a bolha, é a falha dos envolvidos em reconhecer que cruzaram limites que não condizem com a realidade.

Além disso, a bolha também decorre da incapacidade de reconhecer o engajamento geral em atividades especulativas, posto que geralmente as bolhas ocorrem devido a isso, um cenário no qual os ativos estão valorizando rapidamente e muitos buscam especular em cima dele, buscando “surfar a onda”, fazendo o preço do ativo subir a níveis estratosféricos, surreais, por meio da alta demanda.

Na maioria dos casos, quando uma bolha “estoura”, acontece um crash que pode ter grandes proporções. O dano causado depende dos setores envolvidos, e da localidade geográfica dos envolvidos, isto é, se é localizada ou concentrada.

A bolha do Japão, nas décadas de 80 e 90, por exemplo, levou o país a um período prolongado de estagnação da economia. No entanto, como a atividade especulativa estava altamente concentrada no país, o dano pelo estouro da bolha não se espalhou tanto para além de suas fronteiras.

Já no caso do estouro da bolha imobiliária americana, em 2008, seus efeitos se propagaram para muito além de seus limites geográficos. Isso porque muitos bancos e instituições financeiras nos Estados Unidos e na Europa estavam segurando centenas de bilhões de dólares em ativos atrelados à esta bolha.

Tanto é que no começo de janeiro de 2009, as 12 maiores instituições financeiras do planeta haviam perdido metade do seu valor de mercado. A queda na economia levou o efeito para muitos outros setores de negócios, levando muitas companhias a buscarem ajuda ou até mesmo à falência.

Quando se fala sobre este assunto, uma das referências mais clássicas e que ensina bastante com simplicidade é a bolha das tulipas, que ocorreu nos Países Baixos (atual Holanda), no século XVII.

À época, as tulipas, trazidas da Turquia, caíram no gosto dos holandeses com maior poder aquisitivo. Também houve o surgimento de um vírus que, apesar de enfraquecer a flor, danificava seu pigmento deixando-a mais bonita, dando origem a uma variedade rara, exclusiva e, portanto, mais cara, chamada de Semper Augustus. Em 1624, um botão dessa tulipa custava o mesmo que uma casa em Amsterdã. Além disso, acabou puxando o preço das tulipas normais para cima.

Os floristas, precisando fazer dinheiro fora da primavera, começaram a vender os bulbos aos montes. No entanto, os compradores estavam especulando, na esperança de revender mais caro quando as flores aparecessem. Além disso, nem precisavam levar o bulbo para casa, de modo que ficavam apenas com um contrato (título) que lhes dava direito ao dinheiro que a flor rendesse.

Começou a ser realizada especulação do mesmo jeito que conhecemos hoje em dia, sobre os títulos das flores, várias operações de compra e venda dos títulos, com o preço subindo cada vez mais por causa da grande quantidade de especuladores em atividade.

Claramente, essa subida não seria infinita, pois os valores já estavam desconectados da demanda pelas flores como artigos de luxo. Não havia tantos nobres dispostos a gastar o equivalente a uma mansão para ter uma flor. A quantidade de nobres é um recurso finito. Não havia mais consumidor final, as expectativas na compra de uma tulipa eram de encontrar alguém disposto a pagar mais no futuro.

Como era de se esperar, começou a faltar compradores. Além disso, fraudes foram descobertas: floristas vendiam mais contratos do que a quantidade de bulbos que possuíam, o equivalente a imprimir dinheiro falso nos dias de hoje.

No mais, também não se sabia da existência do vírus, pois a vida microscópica era desconhecida naquela época, de modo que o comprador poderia estar com um bulbo de tulipa convencional, achando que era a Semper Augustus. Assim, a confiança dos envolvidos ficou abalada, levando a uma queda no mercado.

No final das contas, muitas pessoas haviam vendido seus bens para investir no negócio fácil das tulipas e acabaram ficando sem nada quando a bolha estourou e os contratos passaram a não valer mais nada. Houve intervenção do governo para o perdão de dívidas e a economia demoraria anos para voltar ao normal.

Toda essa situação é bastante familiar com as várias presenciadas recentemente, como na bolha que gerou a crise do subprime e, também, a bolha da internet.

É extremamente difícil identificar quando estamos dentro de uma bolha, isso é fato, geralmente elas são identificadas após sua ocorrência. Por isso, devemos estar sempre atentos aos fatos e buscando respaldo em premissas sólidas, para tentar ao máximo evitar a participação em bolhas.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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