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    BITCOIN: terreno virtual em forma de moeda virtual

    BITCOIN: terreno virtual em forma de moeda virtual

    Antes de iniciar minha colaboração com a Suno Research, meu ofício como arquiteto e urbanista ocupava quase a totalidade do meu tempo dedicado ao trabalho. Portanto, nunca serei um agente puro sangue do mercado financeiro, dado à minha experiência acumulada no mercado imobiliário.

    Em função disso, minhas análises sobre os ativos disponíveis no mercado de capitais são turvadas por comparações constantes com os ativos do mercado da construção civil, pois é desta atividade que coleto as referências que me ajudam nos estudos que desenvolvo.

    Por exemplo, dizem que uma das vantagens das ações das empresas de capital aberto – e das cotas de fundos imobiliários – em relação aos imóveis tradicionais, está na liquidez. Se um sobrado ou apartamento, por mais valioso que seja, pode levar meses para ser vendido, o equivalente em ações ou cotas pode ser comercializado na bolsa de valores em questão de minutos.

    A liquidez, portanto, é um fator primordial a ser considerado, especialmente pelo investidor de longo prazo em começo de jornada, mais sujeito a um imprevisto que lhe force a se desfazer de alguma posição. Logo, se uma ação movimenta menos do que o valor de um apartamento num pregão eletrônico da bolsa, ela deve ser vista com ressalvas.

    A CAPITAL PLANEJADA DOS BITCOINS

    Quando começaram a me perguntar sobre bitcoins e demais criptomoedas, confesso que minhas primeiras respostas foram para se manter longe desse tipo de especulação, até que fui cobrado a respeito do que conhecia propriamente do assunto.

    Como sempre, coloquei minha lupa sobre o bitcoin com o olho de um arquiteto e urbanista. O urbanista é o profissional que trabalha com o planejamento das cidades e, vejam só: o conceito do bitcoin é muito semelhante ao conceito de um loteamento urbano.

    Como um loteamento urbano é criado? A partir de uma gleba, geralmente oriunda de um sítio ou fazenda que antes pertencia à zona rural de um município. Um escritório de urbanismo ou engenharia desenvolve o projeto do loteamento, determinando a quantidade de quadras e lotes – terrenos – que ele terá. Por exemplo: um loteamento com 20 quadras, de 50 lotes cada, terá 1000 lotes no total.

    O que Satoshi Nakamoto – ou quem usa este nome – fez em 2009? Ele teve a criatividade de conceber um loteamento com 21 milhões de bitcoins, onde cada bitcoin equivale a um terreno, com a diferença de que este terreno tem a função de uma moeda digital.

    MINERADORES DE BITCOINS SÃO INCORPORADORES

    Sabemos que apenas um projeto de loteamento não é suficiente para que o mesmo seja comercializado: é preciso apresentar garantias de que o projeto será executado com a devida terraplanagem, demarcação de quadras e lotes, pavimentação das vias de trânsito e instalação da infraestrutura das redes de água, esgoto, energia e comunicação.

    Um escritório de urbanismo, por si só, não consegue lançar um loteamento, pois isto é tarefa dos incorporadores. São eles que transformam o projeto em realidade. Muitos prestadores de serviços do segmento de loteamentos são pagos parcialmente ou totalmente com os lotes do empreendimento.

    Nakamoto fez algo semelhante. No protocolo de criação do bitcoin, ele criou um sistema que libera senhas de tempos em tempos para que os incorporadores – que ficaram conhecidos como mineradores, numa outra comparação do bitcoin com pepitas de ouro – pudessem demarcar os lotes e pavimentar o caminho até eles.

    No começo os mineradores – ou topógrafos, ou tratoristas – eram premiados com quadras inteiras de 50 bitcoins. Depois, o prêmio pela contribuição na “urbanização do Jardim dos Bitcoins” era de 25 unidades da moeda ou terreno virtual. Na programação estabelecida por Nakamoto, a premiação continua diminuindo: ela já caiu para 12,5 bitcoins.

    SUBDIVISÕES DESVALORIZAM O CONJUNTO

    Aqui chegamos num ponto chave: se o número determinado de 21 milhões de bitcoins tinha a função de evitar a inflação descontrolada do sistema proposto, a própria subdivisão enfraquece este conceito, na medida em que a valorização de cada bitcoin pode gerar incontáveis desmembramentos.

    Nas cidades brasileiras, leis municipais determinam a área mínima que cada lote deve ter, e muitas vezes o próprio criador do loteamento estabelece um padrão de metragem. Infelizmente, em loteamentos abertos, alguns corretores de imóveis passam por cima de tais deliberações, gerando frações de lotes para proprietários distintos, que terão partes ideais na mesma escritura do imóvel.

    Com isso, introduzimos três personagens nessa história, que atuam tanto no mercado de lotes como no mercado de bitcoins: os corretores, os proprietários dos ativos e os cartorários. Os corretores ganham dinheiro nas transações e os proprietários dos ativos podem ganhar através dos movimentos especulativos. A diferença básica, no bitcoin, é que os cartorários são os próprios agentes do mercado.

    BLOCKCHAIN: UM CARTÓRIO VIRTUAL

    Aqui reside, ainda, uma grande semelhança e uma grande diferença entre um bitcoin e um terreno. Um bitcoin, assim como um terreno, possui uma matrícula pública que escritura todas as negociações relacionadas a cada ativo – considerando que bitcoins e terrenos são ativos quando geram renda numa venda com lucro.

    Qualquer brasileiro por ir a um cartório de registro de imóveis e solicitar uma consulta de matrícula de qualquer imóvel. A partir dela existe acesso a todo o histórico deste bem: quem foram seus proprietários, quem promoveu benfeitorias, o valor as condições das transações ocorridas – se elas foram feitas à vista ou financiadas.

    Sakamoto transpôs o conceito do cartório – ou livro de registros – para o bitcoin através da tecnologia do blockchain. Cada bitcoin, portanto, recebe uma matrícula desde sua demarcação feita pelo incorporador do lote – o seu minerador. Se isto pode ser considerado revolucionário e disruptivo no ambiente virtual das moedas, no mercado imobiliário isto chega a ser trivial.

    REGULAMENTAR É PRECISO

    O mercado imobiliário, porém, é altamente regulamentado. Para começar, a figura do cartorário não se mistura com a figura do incorporador ou do corretor de imóveis. No bitcoin, quem faz a escrituração do bem, muitas vezes, é o próprio corretor que promove a sua transação.

    O trabalho do corretor de imóveis também é altamente fiscalizado, ao contrário do que ocorre com o corretor de bitcoins. Antes de sacramentar uma transação, o corretor de imóveis responsável deve verificar várias certidões negativas das partes envolvidas, como a de débitos relativos às contribuições previdenciárias e da central de indisponibilidade de bens.

    No mercado de bitcoins, nada disso é considerado. No lugar do CPF e da firma reconhecida, até indivíduos com pseudônimos conseguem operar com bitcoins.

    Se qualquer cartório brasileiro tem um agente que pode ser responsabilizado civil e criminalmente por permitir transações irregulares, no blockchain ninguém é de ninguém. Não há para quem reclamar quando uma irregularidade eventualmente ocorrer, como numa invasão de computadores por hackers que roubam o poder de transação dos proprietários dos bitcoins.

    A VANTAGEM DAS CÉDULAS

    A valorização – e a compreensão de que um bitcoin é semelhante a um terreno –
    explica o motivo de pouca gente aceitar ele em transações comerciais de pequeno porte. Se você tem R$ 10,00 no bolso, por ir até a esquina e pagar por seu cappuccino. No caso do bitcoin, dificilmente isso ocorrerá.
    Imagine você, acabar de solver seu café, e propor esse diálogo com o barista:

    – O café estava ótimo. Vamos fazer o seguinte: vou ter pagar com um terreno. Vamos até o cartório para você poder me voltar o troco.

    Mesmo o bitcoin sendo uma moeda virtual, suas transações via blockchain podem levar horas para serem efetivadas. Tal fator, por enquanto, inviabiliza o uso do bitcoin como moeda corrente. Se alguma altcoin se apresentar mais eficaz neste quesito, vai tirar muito espaço da primeira criptomoeda. Na verdade, isso já está acontecendo.

    ENTRE A ESPECULAÇÃO E O INVESTIMENTO

    Por isso, investidores e especuladores do mercado imobiliário não fazem transações frequentemente. Como eles ganham dinheiro comprando terrenos? Muitos deles pesquisam loteamentos novos em regiões promissoras da cidade, pois os lotes costumam ser mais baratos nesta fase do empreendimento.

    Após comprar os lotes eles esperam alguns anos, até que os vizinhos começam a construir, atraindo mais pessoas para morar ou investir no loteamento. Conforme o padrão construtivo estabelecido, a valorização pode ser maior ou menor. Tem gente que vende um lote pelo triplo ou quádruplo do preço original sem assentar um tijolo sequer no terreno. Outros vão por um percurso diferente: constroem belas casas em cidades com pressão por novas moradias, agregando valor a um bem imóvel.

    O ATIVO ESTÉRIL

    Esta é a grande defasagem do bitcoin em relação a um terreno: nele não há como construir nada. De um bitcoin você também não recebe dividendo, como ocorre ao investir em ações de empresas pagadoras de proventos.

    Por isso, o bitcoin é um ativo altamente relacionado com especuladores que podem, sim, ficar milionários da noite para o dia, ao menos por enquanto. Já os investidores mais conservadores não enxergam qualquer margem de segurança nesta novidade e preferem ficar de fora da onda.

    Paradoxalmente os defensores do bitcoin e das criptomoedas querem colocá-lo na carteira de investimentos do mesmo modo que se faz com ações da bolsa de valores e imóveis. Esse pensamento é legítimo e quem aceitá-lo deve concordar que as criptomoedas, assim como as ações e imóveis, estão sujeitas aos ciclos da economia, que alternam movimentos de alta com movimentos de baixa.

    A PROVA DOS CICLOS

    Dentre as várias incertezas que cercam o bitcoin e demais moedas virtuais, está a capacidade de tais ativos de risco sustentarem um ciclo de alta indefinidamente. Por ser uma novidade que parece assombrar meio mundo, as criptomoedas, depois de alguns anos em gestação, estão percorrendo apenas a subida da montanha.

    Se há uma convicção em torno disso é que, cedo ou tarde, as criptomoedas entrarão no ciclo de baixa. A queda pode ser tão acentuada quanto foi o movimento de subida. Só saberemos quais delas vieram para ficar, se elas conseguirem atingir um ciclo de retomada após beijar o chão do vale do desespero, como já aconteceu com diversas ações das bolsas ao redor do mundo.

    Será neste hipotético terceiro movimento da história das criptmoedas que os investidores mais céticos vão considerar aportes neste tipo de ativo. Certamente eles perderão as grandes oportunidades de enriquecimento rápido. Porém, eles não estão nesse negócio para decolar feito um foguete: eles em primeiro lugar não querem perder o que já conquistaram.

    BOLHA?

    Posto isso, podemos entender que existe uma bolha especulativa em torno do bitcoin e das altcoins?

    Apesar dos vários indícios favoráveis àqueles que acreditam na tese da bolha, ainda é cedo para ser taxativo. O problema é que, quando a convicção de um tema como este surge, geralmente é tarde demais. Se ficar claro que não era uma bolha, muitos céticos deixarão de ganhar dinheiro. Mas se for realmente uma bolha, muitos aventureiros vão perder tudo.

    Jean Tosetto
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