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Alain de Botton e o desejo de status

By 6 de agosto de 2018 No Comments
Desejo de Status

Todo investidor necessita de ao menos uma convicção: desejar o crescimento financeiro de seu patrimônio. É um desejo legítimo e plenamente aceitável quando realizado dentro das regras vigentes. Em função disso as pessoas procuram por conhecimento prático na forma de livros, vídeos, cursos, assinaturas de serviços como os ofertados por casas independentes de análises no mercado de capitais.

E se por acaso o investidor pudesse ser exposto ao contraditório, de forma respeitosa e inteligente? Não por radicais de ideologias formuladas no fim do século 19, mas por um escritor erudito que transita pela História e por correntes distintas de pensamento? Este é o caso de Alain de Botton e seu livro “Desejo de status”.

O suíço Alain de Botton nasceu em 1969, o que faz dele um dos filósofos mais jovens de nosso tempo. Residente em Londres, ele é filho de Gilbert de Botton – colecionador de arte e investidor, fundador do Global Asset Management – de quem recebeu rígida educação nos melhores colégios da Europa.

Ateu convicto, Botton prega que a filosofia deve substituir a religião na vida das pessoas, sem deixar de reconhecer a importância da religião para o equilíbrio emocional de seus praticantes. Entre seus livros mais importantes estão “A arte de viajar” (2002) e “A arquitetura da felicidade” (2006), mas foi com “Desejo de status” (2004) que ele expôs seu repertório de argumentos mais pertinentes, construídos ao longo de sua formação.

Aprendendo por tabela

“Desejo de status” não foi escrito originalmente para investidores e tão pouco é uma afronta para eles, mas este livro apresenta lições e maneiras de lidar com a impossibilidade de ganhar a corrida da ostentação numa sociedade que vive de aparências, onde mais importante do que ser rico, é parecer rico, convencendo os demais de sua superioridade.

Logo na introdução, o autor apresenta sua tese:

“- O desejo de status tem uma capacidade excepcional de inspirar sofrimento.

– A fome de status, como todos os apetites, tem lá suas utilidades: incita-nos a fazer valer nossos talentos, incentivando a excelência, coíbe-nos de cometer excentricidades prejudiciais e une os membros de uma sociedade em torno de um sistema de valores comum. Mas, como todos os apetites, em excesso também pode matar.

– A forma mais proveitosa de lidar com o problema talvez seja entendê-lo e discuti-lo.”

Causas do desejo de status

Na primeira parte do livro Botton apresenta o que ele considera as principais causas que alimentam o desejo de status nas pessoas, começando pela falta de amor. Para o autor, “dinheiro, fama e influência podem ser avaliados mais como provas de amor – e um meio de se chegar a ele – do que como fins em si mesmos”.

O amor aqui não é restrito ao interesse sexual, possuindo um sentido mais amplo e relacionado à autoestima das pessoas, que anseiam por serem queridas, aceitas e respeitadas nos meios em que vivem – o que nos leva ao esnobismo, termo surgido na Inglaterra no começo do século 19 para designar alunos plebeus de Oxford e Cambridge sine nobilitate. Ao lado de seus nomes nas listas de seleção era escrita a sigla “s.nob.”.

Não ser esnobado seria, para o autor, uma causa importante para o desejo de status. Um comportamento cujas raízes remontam à Idade Média, quando camponeses sabiam que viveriam e morreriam como camponeses, enquanto nobres sabiam que o destino irrefutável deles era a manutenção da nobreza.

O que é sucesso?

A Revolução Industrial, o processo de urbanização da economia e o fortalecimento do capitalismo alteraram a noção de mobilidade social, criando expectativas de ascensão para quem antes estava limitado às classes mais baixas. O avanço da democracia e das sociedades de consumo aceleraram os sentimentos de igualdade, expectativa e inveja nas camadas mais populares das nações, nas quais o autor, citando William James, apresenta a equação do sucesso, que seria resultado da divisão da autoestima do indivíduo por suas pretensões.

Alain de Botton também discute a causa da meritocracia e como ela é vista nos tempos antigos em comparação com os tempos modernos, apresentando criticamente três parábolas para cada período.

Parábolas dos tempos antigos:

  1. O pobre não é responsável por sua situação e é o mais útil na sociedade.
  2. O status inferior não tem conotações morais.
  3. Os ricos são pecadores e corruptos e devem suas riquezas aos pobres.

Parábolas dos tempos modernos:

  1. Os ricos é que são úteis, não os pobres.
  2. O status de uma pessoa tem conotações morais.
  3. Os pobres são pecadores e corruptos e devem sua pobreza à sua estupidez.

Por fim, o autor enumera os fatores de dependência que dificultam a obtenção de status por parte dos meros mortais, como a dependência de talentos inconstantes, que impede alguém de manter seu desempenho numa linha sempre crescente; a dependência da sorte, uma vez que os vencedores raramente reconhecem o papel dela nas suas trajetórias; a dependência de um empregador que ainda aprisiona muita gente na sociedade atual, bem como da lucratividade que este empregador pode aferir, desaguando na dependência da economia global.

O que fazer?

Na segunda parte do livro, Alain de Botton apresenta soluções para controlar o desejo de status – o que particularmente será de interesse direto da parte do investidor, para ajustar sua mentalidade frente ao padrão de consumo, que se for alto demais o afastará do êxito na busca pela independência financeira.

Para Botton, o interesse pela filosofia é de fundamental importância. Citando grandes filósofos da História o autor discorre sobre a busca pelo equilíbrio através da filosofia, como Aristóteles já preconizava 350 anos antes de Cristo. Em “Ética a Eudemo” o grego propõe ideais filosóficos para controlar os extremos: a covardia em oposição à imprudência seria equilibrada pela coragem; a avareza em oposição ao esbanjamento seria equilibrada pela generosidade, e assim por diante, onde o autor acrescenta que a ambição deve controlar a letargia de status versus a histeria de status.

O livro é repleto de ilustrações e fotografias de grande teor artístico, uma vez que a arte também seria um caminho para dosar o desejo de status. Além das artes plásticas, o teatro grego também é enaltecido numa das passagens mais brilhantes da obra. Os gregos gostavam de encenar as tragédias que giravam em torno de heróis e expoentes da sociedade que caíam em desgraça, descrevendo o reverso da fortuna através da peripeteia, na qual erros de avaliação aparentemente simples tiram os personagens de suas trajetórias de sucesso, nos fazendo lembrar que preservar a humildade, evitando a soberba, é importante ao longo da vida.

A comédia também assume papel importante, pois através das sátiras dos costumes e das pessoas eminentes podemos tecer críticas construtivas e inteligentes que relativizam o sucesso alheio e acalmam o sentimento de inveja que insiste em vagar pelo âmago de todos.

O status ao longo do tempo

Entrando na seara da política, o autor discorre sobre como a exigência de status elevado eram considerada em diferentes sociedades e épocas. Em Esparta, quatro séculos antes de Cristo, por exemplo, os indivíduos de maior status eram os belicosos, de avantajado porte físico, com pouco interesse pela vida familiar e pelos negócios. Em tribos do noroeste da Amazônia, por vários séculos, os melhores índios eram os caçadores, que usavam dentes de onça em colares, relegando aos pescadores um nível baixo de status.

Nas grandes metrópoles da atualidade, ter status elevado é um atributo que independe de sexo e raça, mas é reservado para aqueles capazes de acumular capital e obter êxito com as próprias atividades, mais do que em função das heranças recebidas – argumentando, no entanto, que isso não pode ser encarado como algo natural, mas como reflexo de um contexto, cujo antídoto pode ser o resgate de valores do cristianismo que ajudaram a moldar a cultura ocidental nos últimos dois milênios.

A noção de brevidade da vida e da inexorável ocorrência da morte nos coloca numa perspectiva de igualdade perante os demais, que particularmente o cristianismo soube explorar ao longo dos séculos, trazendo conforto psicológico para aqueles que dificilmente alcançarão o sucesso em vida. Diante da imensidão do universo, que para os religiosos está representado pela intervenção divina, as diferenças entre ricos e pobres – vencedores e fracassados – é absolutamente irrelevante.

Negação dos valores materiais

Em “Desejo de status” a boemia encerra a tese do autor ao retratar pessoas que se vestem de modo simples, moram em bairros de aluguéis baratos – ou em comunidades rurais – e dão pouca importância aos valores materiais, obtendo renda suficiente apenas para a subsistência e manutenção de seus interesses culturais.

Para os boêmios, os poetas e músicos são mais importantes do que os homens de negócio, embora se reconheça que este estilo de vida seja muito difícil de ser seguido à risca.

De acordo com Button, “a filosofia, a arte, a política, o cristianismo e a boemia não buscaram nos livrar da hierarquia de status; tentaram instituir novos tipos de hierarquia baseados em conjuntos de valores que a maioria não reconhece e critica. Embora mantenham uma firme distinção entres sucesso e fracasso, bem e mal, vergonha e honra, esses cinco grupos empenharam-se em refazer nossa concepção do que realmente pertence a esses conceitos opressivos”.

Advertência

“Desejo de status” não é um livro de autoajuda e sua leitura não é pré-mastigada para compreensão imediata, dado que várias referências sobre outras obras e autores geralmente não são de conhecimento do público pouco habituado a leituras mais profundas. Mas é um livro que merece ser lido por aqueles que intencionam adquirir a mentalidade de investidores de longo prazo que, ironicamente, são pouco afeitos aos sinais externos de riqueza.

Livrar-se da necessidade de trocar de carro todo ano, de morar na cobertura de um prédio na beira do mar, de frequentar festas chiques usando roupas caras; e adotar um padrão de consumo mais racional e comedido – não necessariamente boêmio – é um caminho que ajudará na capacidade de poupança do indivíduo que, sabendo da brevidade de sua vida e do seu tamanho perante o universo, poderá se satisfazer espiritualmente através da arte e da filosofia, antecipando com isso a sua independência financeira, uma vez que ela não será usada para patrocinar extravagâncias, mas o próprio crescimento pessoal.

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Jean Tosetto

Jean Tosetto

Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.