Ações e Juros Compostos

Muitos investidores, sobretudo os iniciantes, não conseguem entender como os juros compostos funcionam no investimento em ações.

De fato, não existe aquela curva lisa, bonita, exponencial, mostrada nos livros básicos de investimentos. A curva típica da renda fixa pré-fixada.

E isso ocorre justamente porque a taxa de retorno nas ações é desconhecida de antemão. Não só é desconhecida, como ela é variável no tempo.

Em períodos curtos, o retorno pode oscilar muito, alternando de positivo a negativo, e, portanto, não faz sentido falar em juros compostos.

Mas no longo prazo, diga-se anos ou décadas, o investimento em ações se aproxima do padrão exponencial de juros compostos.

Por quê?

Para entender isso, é preciso entender o efeito dos juros compostos em cada um dos fatores que compõem o patrimônio do acionista, isso é, a quantidade de ações e preço.

1º FATOR: QUANTIDADE DE AÇÕES

O efeito dos juros compostos na quantidade de ações se resume ao reinvestimento dos dividendos recebidos.

Por exemplo: Imagine uma ação em que seja possível conseguir um yield de 10% com recorrência.

O acionista que tem 10.000 ações e reinveste os dividendos, é como se recebesse 1000 ações de graça no 1º ano.

Assim, depois de um ano ele tem 11000 ações, depois 12100 ações no 2º ano, e assim por diante…

A quantidade de ações cresceria a 10% ao ano.

Logicamente, esse é um modelo. O Yield flutua.

Mas a ideia é que quanto melhor for o Yield da compra, mais rapidamente a quantidade de ações aumentará através desse mecanismo.

Por isso, é importante que o jacaré não durma de boca aberta.

Essa é a essência da estratégia do Barsi apresentada no estudo “Faça fortuna com ações”.

Porque se o lucro for apenas corrigido pela inflação e o Payout se mantiver o mesmo, a renda do acionista iria também aumentar em 10% reais compostos anualmente.

2º FATOR: VALORIZAÇÃO

Para entender o efeito dos juros compostos na valorização da ação, é útil pensar no modelo de fluxo de caixa descontado.

Neste modelo, o valor intrínseco da companhia cresce a cada ano na mesma taxa de crescimento da geração de caixa livre ao acionista (FCFE).

Se o FCFE cresce 15% ao ano, é de se esperar que o preço da ação também cresça na mesma proporção*.

É intuitivo.

Se a empresa gera mais caixa (que em tese poderia ser distribuído aos acionistas), ela deveria valer mais.

Essa relação é verificada na prática.

Só que esse processo de convergência do preço com valor costuma ocorrer “aos trancos e barrancos”. O motivo é simples.

O mercado sempre precifica o futuro. Se as expectativas forem muito otimistas e os resultados decepcionarem, a ação cai.

Dizemos que a ação negocia acima do preço justo.

No exemplo acima, se o investidor pagar muito caro pela ação, provavelmente terá um retorno inferior a 15% ao ano.

Às vezes essas valorizações beiram o absurdo, como na bolha de internet dos anos 2000.

E o contrário também é verdadeiro. Quando os resultados surpreendem, a ação sobe.

Durante crises econômicas, por exemplo, o mercado precifica o fim do mundo. Nesses momentos surgem as melhores oportunidades, quando o pessimismo é exagerado.

Dizemos que a ação negocia então abaixo do preço justo.

Voltando ao exemplo anterior, o investidor que comprasse nesses momentos muito provavelmente conseguiria um retorno acima de 15%.

Para diferenciar uma ação cara de uma ação barata, é necessário saber fazer valuation.

Quando bem feito, é como se o investidor “hackeasse” o mercado, valorizando sua ação mais do que ele mereceria com base no crescimento dos resultados do negócio.

É isso que tentamos fazer como investidores. Explorar as ineficiências do mercado.

A COMBINAÇÃO EXPLOSIVA

Os dois mecanismos explicados acima não são independentes, mas sim, se acoplam para melhorar a rentabilidade de uma carteira.

Ex: uma ação que crescesse o FCFE em 8% ao ano e pagasse 6% de Dividend Yield, deveria fornecer um “retorno total justo” de 14,5% ao ano.

Mas algo incrível acontece quando o investidor consegue um Yield melhor.

Se o Yield, ao invés de 6% ao ano, fosse de 8% ao ano, o retorno total esperado não seria apenas de 16,5% (14,5% + 2% a mais de yield), porque a ação estaria sendo negociada com 20% de desconto em relação ao preço justo (margem de segurança).

E portanto, à medida que esse “gap” fecha, a valorização da ação cresce acima do FCFE nesse período, ou seja, acima de 8%.

CONCLUSÃO

Ações são remuneradas incrivelmente através dos juros compostos na bolsa de valores.

Uma ação com DY alto não só aumenta a quantidade de ações, o patrimônio, e a renda de forma composta, mas se ainda estiver sendo negociada abaixo do valor justo, o investidor ainda ganha um “turbo” na valorização do seu patrimônio.

E se as expectativas forem de crescimento significativo nos lucros e aumento do Payout, a bola de neve de renda e patrimônio fica maior ainda.

* ignorando o desconto na data-ex. As empresas também são dinâmicas. O FCFE também cresce de maneira variável. Mas isso não muda a conclusão do texto.

** (1+8%)*(1+6%) – 1 = 14,48%

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Rodrigo Wainberg

Rodrigo Wainberg

Profissional aprovado no Level III da certificação CFA, investidor em ações há 6 anos, possui registro de Analista e Consultor de Valores Mobiliários, e é Bacharel em Física pela UFRGS.