Por: Tiago Reis

A “carne” sem carne: tendência ou especulação?

O consumo de carne aumentou vertiginosamente no último século e, com ele, uma série de questões vieram à tona acerca dos benefícios e malefícios decorrentes de tal fato, não apenas no âmbito da saúde humana, mas dos impactos ambientais e sociais que isso traz.

Nas últimas décadas, vivenciamos um crescimento significativo do ativismo contra o consumo de carne, que levou a uma expansão considerável da comunidade vegetariana e vegana em diversos países do planeta. Não sabemos se esse movimento é apenas momentâneo ou se é uma tendência que permanecerá, mas alguns pontos têm chamado atenção.

Em um ano repleto de IPOs, a companhia que mais se destacou, em termos de rentabilidade pós abertura de capital, foi justamente uma empresa que atua neste segmento, cuja gestão alega que seus produtos inovadores revolucionarão a indústria de alimentos.

Essa empresa chama-se Beyond Meat. Fundada em 2009, nos Estados Unidos, a organização busca produzir alimentos que imitam a carne moída e hamburgueres, tanto na textura quanto no sabor e no aroma, mas que são produzidos a partir de proteína vegetal, principalmente de ervilhas.

A empresa, que negociou suas ações na abertura de capital a US$25,00, viu a cotação de seus papéis multiplicar por seis, fechando a sexta-feira (14) acima de 150 dólares.

Com as elevadas expectativas do mercado para esse segmento, outras empresas concorrentes podem abrir capital num futuro próximo. Entre elas, uma startup vem crescendo significativamente, a Impossible Foods. A empresa estabeleceu parcerias com redes de fast food, como o Burguer King, e já começou a distribuir seus produtos.

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A elevada rentabilidade chama atenção dos investidores, mas será que a valorização da ação é fundamentada ou não passa de mera especulação? Vamos aos fatos.

O segmento de atuação das companhias tem crescido basicamente por dois direcionadores: a saúde e o ambiente. Enquanto cada vez mais estudos defendem que o consumo excessivo de carne vermelha pode trazer problemas à saúde, uma parcela da população busca dietas alternativas.

Por outro lado, a cadeia produtiva de carne, principalmente carne vermelha, está relacionada a alguns problemas ambientais que têm chamado atenção de ambientalistas. Esse fator tem elevado significativamente o número de ativistas que lutam contra o consumo.

Por mais que estes fatores possam contribuir para a expansão deste mercado, quando comparado ao mercado de carne, o segmento de atuação destas empresas ainda é extremamente pequeno.

Em 2018, o mercado de carne movimentou cerca de US$250 bilhões apenas nos Estados Unidos, e cerca de US$1 trilhão quando olhamos para o mundo como um todo. Enquanto isso, o segmento em que a Beyond Meat está inserida envolveu receitas com vendas que não superam os US$5 bilhões mundialmente (incluindo outras proteínas alternativas que não tentam imitar carne, como o tofu).

Além de ser um nicho de mercado pequeno, a companhia não apresenta números que justificam a alta nos preços. A receita da Beyond Meat, em 2018, foi de aproximadamente US$87.9 milhões, entretanto, a companhia opera com margem negativa e apresentou resultados insatisfatórios, com prejuízo operacional de US$26,6 milhões.

Com capitalização de mercado de mais de 9 bilhões de dólares, a empresa é negociada hoje a mais de dez vezes a receita, o que é um forte indicativo de que o mercado possui expectativas elevadas sobre a companhia.

Como toda empresa inovadora, boa parte da avaliação de mercado é baseada em expectativas futuras. Entretanto, mesmo que consideremos um cenário otimista, com crescimento significativo das receitas e melhoria nas margens por ganhos de escala e poder de precificação, com a consolidação da marca pioneira, a empresa continua sendo negociada a patamares elevados.

Aswath Damodaran, professor de finanças e um dos maiores escritores sobre avaliação de empresas (valuation), também acredita que o preço de negociação da companhia não tem fundamentos. Em sua avaliação, o professor cria o seguinte cenário.

Considerando que o mercado de produtos que imitam a textura e o sabor da carne cresça de US$1 bilhão em 2018 para US$12 bilhões em 2028 e que a companhia se configure como uma das maiores do mercado, com um market share de aproximadamente 25%, teríamos uma multiplicação das receitas em mais de 34 vezes em uma década.

Na construção deste cenário otimista, consideremos também que a companhia melhore muito suas margens operacionais, que hoje são de -21,38%, para a média da indústria de alimentos processados dos Estados Unidos, de 13,22%, devido aos ganhos de escala e de poder de precificação.

Por fim, imaginemos que a companhia ainda consiga melhorar o retorno no capital investido. Hoje, para cada dólar investido, a empresa gera um dólar equivalente em receitas. Consideremos que, em 2028, para cada dólar investido, a companhia gere três dólares de receita, aproximadamente o dobro do que a indústria americana de alimentos processados gera.

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Dessa forma, mesmo considerando um cenário bastante otimista, com crescimento do mercado em 12 vezes em 10 anos, ampliação das receitas em 34 vezes no mesmo período, melhoria nas margens e no retorno do capital investido, Aswath Damodaran chegou em uma avaliação do valor justo da ação hoje de aproximadamente US$47 dólares. O preço de fechamento da ação na sexta feira (14) foi mais de três vezes este valor (com alta de 7,14% no dia).

Como qualquer avaliação de empresas adota premissas, o valuation de Damodaran pode estar errado e um cenário ainda mais otimista pode se concretizar, entretanto, a probabilidade de isso ocorrer não é muito grande.

Para justificar o preço atual, a companhia teria de apresentar margens muito superiores às margens consolidadas atualmente no setor, com crescimento das receitas e lucros quase inimagináveis.

Enquanto este cenário não se concretiza, aguardemos pelo desenvolvimento deste setor, com fortalecimento da concorrência através do surgimento de novas companhias. Será que os resultados futuros da empresa justificarão seu preço atual? Possível? Sim. Provável? Não.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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