Por: Tiago Reis

2 importantes fatores para se analisar em relação a dívida de uma companhia

Dentre os muitos elementos a se analisar frente a saúde financeira de uma empresa, aqueles que tangem a sua dívida certamente possuem um caráter de bastante relevância para um investidor que mantém o seu foco de aplicação no longo prazo.

Entretanto, mesmo a dívida de uma empresa sendo um quesito bastante pertinente em uma análise fundamentalista, muitos investidores ainda apresentam certa dificuldade em analisá-la e entender se a mesma se encontra dentro de uma conjuntura ainda saudável ou não para a companhia em questão.

Pontos relevantes sobre endividamento

Antes de mais nada, é preciso se esclarecer que, diferentemente do que pensam muitas pessoas, o fato uma companhia apresentar dívida não significa necessariamente que a mesma se encontra “em apuros”.

Isso se explica pelo fato de que, na grande maioria dos casos – a depender também do seu segmento de atuação – projetos que apresentam capacidade de retornos rentáveis para a empresa normalmente dependem de capital para serem tocados.

Existem ocasiões, entretanto, em que as empresas não possuem em caixa, naquele momento, o montante financeiro necessário para executarem tal programa, o que faz com que a necessidade de uma capitação frente a instituições financeiras se faça necessária.

Dessa maneira, cabe aos executivos da companhia estudarem o potencial de rentabilidade do esboço do projeto em questão e compará-lo com o custo da dívida oferecida pelo mercado.

Caso o projeto seja mais rentável – de acordo com a análise da gestão da companhia – é totalmente compreensível e viável que o financiamento bancário se faça necessário, haja vista que a diferença entre o custo de tal dívida e a rentabilidade que a empresa conseguirá executando o seu projeto retornará para ela – e para seus acionistas – de maneira positiva.

Assim sendo, cabe ao investidor, portanto, esclarecer-se sobre a saúde dos compromissos financeiros das empresas, perante alguns critérios que comentaremos abaixo.

Primeiramente, o que é a Dívida Líquida?

A dívida líquida de uma empresa nada mais é do que o seu endividamento total – ou seja, a sua dívida bruta – menos as suas disponibilidades em caixa naquele momento.

A título de ilustração, tomemos como referência o endividamento da Taesa (TAEE11) referente ao primeiro trimestre de 2018.

É possível perceber, abaixo, que o total da dívida bruta da transmissora, no término do 1T18 era de R$ 3 bilhões, divididos em R$ 434 milhões com provisionamento de pagamento em até um ano (ou seja, de curto prazo), e o restante – R$ 2.651 bilhões – acordados para o acerto no longo prazo.

Adicionalmente, é possível visualizar que, no mesmo período, a companhia apresentava R$ 906 milhões em seu caixa, o que fez com que, dessa maneira, a sua dívida líquida se apresentasse na totalidade de R$ 2,1 bilhões.

É importante que se entenda esse conceito pois, normalmente, os indicadores de dívida são estipulados em função da dívida líquida do empreendimento em questão, e são desses indicadores de dívida que falaremos abaixo.

1 – Dívida Líquida sobre o Patrimônio Líquido (DL/PL)

Este é um indicador através do qual costumamos dar bastante atenção em nossos processos analíticos de uma empresa, e costumamos recomendar fortemente para quem também se interessa em estudos contábeis.

O seu conceito é de bastante importância, haja vista que, resumidamente, o Patrimônio Líquido (PL) de uma companhia é o capital que, em tese, pertence aos acionistas de uma empresa.

De uma maneira resumida, o PL é definido como a diferença entre os Ativos (Bens e Direitos) de uma empresa e os seus Passivos (Obrigações), dados esses que são disponibilizados trimestralmente pelas empresas através do seu Balanço Patrimonial.

Patrimônio Líquido = Ativos – Passivos

Para exemplificação, segue abaixo o balanço patrimonial do Magazine Luiza (MGLU3) referente ao primeiro trimestre do ano de 2018.

Isto posto, é possível entender que uma relação de Dívida Líquida sobre o Patrimônio Líquido de uma empresa inferior a 100%, ou seja, que o seu montante referente a seus compromissos financeiros não ultrapasse o valor total do capital dos acionistas da empresa, é um patamar que se encontra dentro de um padrão saudável e endividamento.

Dessa maneira, julgamos ser ideal um nível de Dívida Líquida que represente no máximo 100% o valor do Patrimônio Líquido de uma companhia.

O Portal Fundamentus é uma boa ferramenta gratuita através da qual é possível se obter essa proporção.

Perceba acima, através dos dados disponibilizados pelo Fundamentus, como a Unipar Carbocloro (UNIP6) é uma companhia que possui um patamar de dívida bastante confortável frente ao seu Patrimônio Líquido, haja vista que a relação DL/PL é inferior a 50%.

2 – Dívida Líquida sobre o Ebitda (DL / Ebitda LTM)

Este é outro fator relevante para se levar em conta ao se analisar a saúde financeira de uma empresa no que tange o seu endividamento.

Em relação ao mesmo, é importante ressaltar que o Ebitda, em tese, nada mais é do que uma proxy da geração de caixa operacional de uma companhia.

Dito isso, é importante ressaltar que, normalmente, investidores voltados ao longo prazo preferem um patamar de Dívida Líquida / Ebitda LTM de, no máximo, até 3 vezes.

Vale lembrar que o Ebitda é comumente disponibilizado trimestralmente pelas companhias ao mercado através do seu Demonstrativo de Resultados do Exercício (DRE), e o ideal é que o investidor avalie essa métrica de endividamento levando em consideração o Ebitda dos últimos doze meses (Ebitda LTM).

Considerações

Apesar de na grande maioria dos casos esses dois indicadores de endividamento “andarem de mãos dadas”, é muito importante que se fique claro que, em alguns casos, divergências relevantes podem ser observadas ao se analisá-los.

Por exemplo:

Suponha-se que um empreendedor enxergue uma oportunidade de negócios no ramo de aluguel de obras de artes.

Assim sendo, o mesmo abre uma empresa e aplica no negócio, do seu capital próprio, R$ 100 mil e, adicionalmente, acrescenta à empresa mais R$ 100 mil provenientes de um empréstimo bancário.

Com o caixa, então, de R$ 200 mil, o mesmo adquire, a vista, uma obra de arte também no valor de R$ 200 mil e a aluga a um cliente ao preço de R$ 10 mil por ano, com pagamento antecipado.

Com isso, o Ebitda LTM da companhia seria de R$ 10 mil.

Neste cenário, o saldo no caixa de sua empresa passa a ser, então, de R$ 10 mil, ao passo que o seu ativo passa a ser de R$ 210 mil (referente ao quadro comprado mais o saldo em caixa da empresa), os passivos são os R$ 100 mil (provenientes da dívida adquirida), e o seu Patrimônio Líquido vem a ser, portanto, de R$ 110 mil.

Ativos = R$ 210 mil

Passivos = R$ 100 mil

Patrimônio Líquido = R$ 110 mil

Nesse cenário hipotético e bastante simplificado, temos, então, que os indicadores de dívida da empresa seriam:

DL/PL = 90,9%

DL / Ebitda LTM = 10x

No caso acima, o investidor que analisasse a dívida da companhia apenas em relação ao seu Patrimônio Líquido, enxergaria ali uma condição saudável de endividamento.

Contudo, quando comparado ao Ebitda LTM, pode-se concluir que a empresa se encontra em uma situação bastante desafiadora de compromissos financeiros em relação à sua geração de caixa operacional, haja vista que a mesma seria de 10x.

Assim sendo, é de extrema importância que um indicador nunca seja analisado de maneira isolada em uma análise fundamentalista, e o motivo para isso é simples:

Indicadores indicam, eles não determinam!

Conclusão

Levando-se em conta que a principal causa da mortalidade das empresas é um endividamento descontrolado, analisar os principais pontos a respeito de seus compromissos financeiros é fundamental para uma análise coerente de um negócio.

Neste sentido, tanto o indicador Dívida Líquida / Patrimônio Líquido, quanto o Dívida Liquida / Ebitda LTM são de bastante relevância para um investidor interessado na saúde financeira de uma companhia.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

Nenhum comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia Mais...
Outras Seções

Ações

205 artigos
Ações

FIIs

52 artigos
FIIs

FALTAM POUCOS

DIAS PARA A

DIAS
 HOR
 MIN
 SEG

INSCREVA-SE E TENHA ACESSO À OFERTAS IMPERDÍVEIS!